TEXTO DA SEMANA: Quem casa, quer casa, de Tatiana Belinky


A talentosa escritora de livros infantis Tatiana Belinky, faleceu aos 94 anos no último sábado, 15/06, conforme já falamos aqui. Por tal razão, escolhemos homenageá-la da melhor forma possível, que é divulgando um pouco do seu lindo trabalho! Assim, escolhemos para essa semana um texto da sua autoria! Confiram: 


Mujim, o caramujo, andava devagar mesmo quando apressado. Os outros bichos viviam caçoando de sua vagareza, mas ele nem ligava:

-- Ando devagar porque carrego minha casa nas costas. Pesa mas vale a pena: não pago aluguel nem imposto nem hotel. Podem caçoar que a vantagem é minha. (Esse Mujim gostava de levar --e de contar-- vantagem).

Um dia, passeando no bosque, Mujim se encontrou com outra vagarosa, Lelé, a lesminha, tão roliça, gorducha e macia que ele não teve dúvida:

-- Oi, Fofinha, quer casar comigo?

-- Sei não, hesitou a lesminha. Eu queria casar com doutor...

-- Não sou doutor, mas sou proprietário --gabou-se Mujim, sempre contando vantagem. Tenho casa própria portátil, como pode ver. Se nos casarmos, você virá morar comigo. Como é, casa comigo?

-- Caso sim, decidiu Lelé. Quem casa quer casa!

-- Então vamos já para o cartório, entusiasmou-se Mujim.

E lá se foram os dois, apressadíssimos, correndo bem devagar. Ele porque a casa pesava muito, e ela... ora, porque era lesma, não é?

No cartório da floresta, a juíza doutora Coruja abriu seu livrão:

-- Sr. Mujim, aceita a srta. Lelé para sua legítima esposa?

-- Aceito, respondeu o caramujo, com a mão no coração.

-- Srta. Lelé, aceita o sr. Mujim para seu legítimo esposo?

-- Aceito, disse a lesminha, baixando os olhos porque ouviu dizer que as noivas baixavam os olhos na hora do casamento.

-- Então declaro vocês dois marido e mulher, encerrou a coruja e fechou o livrão.

E aqui a história deveria terminar, dizendo que os dois entraram na casinha e viveram felizes para sempre.

Mas não foi o que aconteceu.

O que aconteceu foi que, na hora de entrar na casinha, quem disse que a lesminha conseguia passar pela porta? Roliça e gorducha como era, por mais que espremesse, nada de poder entrar. Tudo o que Lelé conseguiu foi apertar o Mujim, que não gostou nem um pouco de ser assim incomodado.

-- Você é muito gorda, Lelé, irritou-se o caramujo. Acho que gasta muito em comida. Precisa fazer regime para emagrecer, sabia?

-- Ah, é?, revoltou-se a lesminha. Primeiro você gostou de mim porque eu sou roliça e gorduchinha e agora, só porque casou comigo, já quer me mudar? Quer que eu não coma, fique magra e seca?

-- É isso aí, empertigou-se o caramujo. Quem quiser morar comigo tem que caber na minha casa do jeito que eu quero.

-- Pois então, enfezou-se a lesminha, procure uma minhoca seca para casar com você e sua preciosa casinha! Tchau mesmo!

E a lesminha (que, como vocês viram era lelé só no nome) virou as costas e correu bem devagarinho até o cartório. E lá, a doutora Coruja, quer era juíza muito sábia, anulou aquele casamento na mesma hora.

E, agora sim, acabou a história. Por enquanto.

(Tatiana Belinky em sua biblioteca pessoal)



2 comentários:

Luciana Nogueira disse...

gostei bastante, estou procurando um texto dela para fazer um trabalho com 8o ano do EFII. Você tem algo a indicar?

Isabela Lapa disse...

Oi Luciana, tudo bem? Este que publicamos pode ser interessante porque foi o primeiro texto dela para a "Folhinha". No entanto, eu também gosto muito desse aqui:

Ser criança é dureza-
Todo mundo manda em mim-
Se pergunto o moitivo,
Me respondem "porque sim".

Isso é falta de respeito,
"Porque sim" não é resposta,
Atitude autoritária
Coisa que ninguém gosta!

Adulto deve explicar
Pra criança compreender
Esses "podes" e "não podes",
Pra aceitar sem se ofender!

Criança exige carinho,
E sim! Consideração!
Criança é gente, é pessoa,
Não bicho de estimação!

(Tatiana Belinky)

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