Chamado Selvagem Clarice Lispector

Chamado Selvagem, de Jack London, com adaptação de Clarice Lispector

16:35Universo dos Leitores

Ao pensar em nossos instintos, nossos desejos e impulsos, sempre damos a eles a dimensão animal. A animalidade de qualquer ser está naquilo que ele não pode conter ou negar. Por exemplo, animais não fazem greve de fome ou sexo, não deixam de abanar o rabo ou, do nada, resolvem se suicidar. É essa dimensão que nos dá a medida exata do que é estar vivo e partilhar de pulsões que, inclusive, são contra nós próprios. Jack London, um dos maiores escritores do final do século XIX e início do século XX e uma de suas obras mais consagradas, O Lobo do Mar (1904), vem ganhando fãs em nosso mundo que se parece cada vez mais racionalizado e precisa desse lado animalesco. Uma de suas obras, Chamado Selvagem (1903), recém relançada, aprofunda feroz e encantadoramente esse tema.

Chamado Selvagem, da Editora Rocco, é sobre Buck, um cão resultado do cruzamento de um são-bernardo com um collie escocês, que vivia com uma família no Sul dos Estados Unidos tendo uma vida boa, com carinhos, boa comida, diversão, afeto e, principalmente, uma família. No entanto, um funcionário viciado em jogos, resolve um dia levar o cão e vende-lo para um mercador qualquer. Vendido para uma espécie de canil, Buck é seguidamente espancado até que perdesse todo seu ímpeto de ser ver live. Logo após, é outra vez entregue a uns homens que faziam transportes de cargas que levam o cão em uma empreitada para o Norte do país, inclusive para o Canadá, tendo de sofrer frio, fome e todo o esforço do trabalho.


Aos poucos, o que se vê é que, por detrás do cão dócil, está escondido também uma fera, um animal que reencontra suas ancestralidade animal e, inevitavelmente, não poderá escapar dela. Cito:

“Seus últimos vestígios de civilidade desapareciam rapidamente. Os músculos endureciam como ferro: não sentia mais dores. Estava se transformando externa e internamente. (…) Não aprendia somente com a experiência. Seus instintos atávicos, há muito adormecidos, foram aos poucos, se apurando. Afastava-se cada vez mais das gerações de cães domesticados.”

Eis que, mais uma vez, Buck encontra um bom homem, John Thornton, que salva e cuida do cachorro dando-o novamente o afeto que recebia na primeira família. Entretanto, a dualidade entre docilidade e impulso animal oscilam dentro de Buck e vão cobrar o seu preço. Acontece que essa espécie de despertar que se dá em Buck não se dá inocentemente, tudo precisa ser redimido e aquilo que é despertado passa a fazer parte da vida do cão que, traiçoeiramente, torna-se um líder, mata outros cães, caça animais e tem um apreço por carne e sangue frescos. Buck passa a procurar, e a viver somente a procura desses momentos de êxtase. Creio que nesse ponto Jack London coloca o cachorro ao lado dos homens e tenta exprimir nosos desejos profundos que, em algum momento, reprimidos ou nos entregamos:

“Há um momento de êxtase que marca o ponto mais alto e inexcedível da vida. É um paradoxo que esse momento chegue exatamente quando nos sentimos mais vivos. Esse momento é conhecido dos artistas. E também do soldado que, enlouquecido pela guerra, mesmo num campo cercado, se nega a render-se.”

Chamado Selvagem, Jack London, se revela, então, um tratado sobre esses corpos que são empurrados para a vida e, logo depois, empurrados da vida. Sobreviver, viver, resistir, talvez seja uma questão de aprendizado. Tanto que, este lançamento da Rocco, tem adaptação de Clarice Lispector que, embora possua um estilo de narrativa diferente, ataca o mesmo ponto que London.

Trata-se de uma das melhores obras que li na vida e, por conta disso, recomendo e indico a todos!

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