Crítica Don Kulick

Travesti – prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil, de Don Kulick

00:00Isabela Lapa

Olá Leitores!

A resenha de hoje é da Júlia, uma convidada do site... Aproveitem!
De antemão já vou avisando que achei Don Kulick “o cara”: transformou um tema polêmico em uma narrativa deliciosamente envolvente e curiosa. Fruto de um estudo etnográfico, o livro do antropólogo sueco é resultado de pesquisas de campo realizadas entre 1996 e 1997, período em que o autor viveu com as travestis de Salvador.

Longe de ser apenas uma análise antropológica seca e sistemática sobre os dados coletados por Don, Travesti é um livro que muda olhares. A começar pela desconstrução gradual que faz dos estereótipos que criamos: eu pelo menos sempre imaginei que o sonho primordial de qualquer travesti seria ter nascido mulher, mas já no primeiro capítulo caí do cavalo!

“Ao contrário, há um consenso fortemente estabelecido entre as travestis de Salvador: para elas, qualquer travesti que se diz ou se considera mulher tem problemas mentais. Travesti não é mulher e não pode ser mulher, dizem umas às outras, porque Deus as fez homens.”

Com uma linguagem divertida e nada convencional para um relato teórico, Don Kulick nos convida a conhecer a vida das travestis a partir de um ponto de vista bem diferente do qual estamos acostumados a ver (ou ouvir), já que a mídia brasileira faz uma associação nada delicada entre as travestis e questões como violência, drogas e promiscuidade.

A grande sacada do antropólogo, em minha opinião, é que ele saiu da mesmice e mergulhou com tudo num universo misterioso com o propósito de elucidar o desconhecido mesmo com toda a enxurrada de mensagens discriminatórias que escutou. É claro que o fato de se tratar de um estrangeiro que nunca havia presenciado a realidade travesti contribuiu e muito para que o autor mantivesse a mente aberta.

O resultado foi um relato fascinante, com descrições encantadoras, que revela a partir de falas espontâneas das próprias travestis, um mundo que mistura violência, prazer, discriminação e bom humor em medidas extasiantes. 

“Porque tem que ter um corpão pra poder ganhar dinheiro, né? Porque se não tiver [...] os home gosta de ver... travesti é com corpão pra poder ganhar dinheiro.”

Mas é claro que grande parte da beleza do livro deve-se ao fato de as travestis terem participado ativamente da construção do mesmo, falando abertamente sobre temas como as primeiras experiências sexuais, prostituição, modificações corporais, violência e homens. Uma delas em especial (Keila Simpson) acabou se tornando amiga de Don e mereceu até a dedicatória do livro (achei super fofo).

“Sempre que olham para trás, para a infância, buscando indícios que podem tê-las feito virado travesti, o que aparece mais nitidamente e de maneira mais elaborada é o tema da atração por homens e do prazer proporcionado pelas brincadeiras sexuais com seus jovens parceiros.”

Ah, não poderia jamais deixar de falar sobre outro ponto chave do enredo: a construção de gênero adotada pelas travestis. Elas não se consideram e não desejam ser consideradas como mulher, mas também não se julgam homens, a não ser do ponto de vista anatômico. Esta contradição nos angustia o livro inteiro! Brilhantemente, Don Kulick deixou para o capítulo final a elucidação sobre “quem são as travestis, afinal?”.

Travesti – prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil está mais que recomendado, principalmente porque nos desperta da ignorância e nos despe de preconceitos.
Resenha de Júlia Carvalhaes, 25 anos, formada em Ciências Biológicas, pós graduanda em Auditoria e Gestão da Qualidade e estudante de Pedagogia. Tem muitas paixões, o que a motiva a fazer várias coisas ao mesmo tempo, inclusive ler, ler muito.



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