Alabardas alabardas Espingardas espingardas Companhia das Letras

Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas, de José Saramago

00:00Universo dos Leitores

Logo que terminou de escrever Caim, o escritor José Saramago começou a se dedicar a um novo livro. Enquanto escrevia, fazia pequenas anotações sobre os personagens, os seus objetivos com a história, os possíveis títulos etc. No dia 26 de dezembro de 2009, ele fez a seguinte anotação: "Dois meses sem escrever. Por este andar, talvez haja livro de 2020... Entretanto, a epígrafe sera: Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas."

Infelizmente Saramago faleceu no dia 18 de junho de 2010, antes de terminar de contar a história da vida de artur paz semedo, um contador em uma empresa de armas bélicas chamada belona s.a, que conseguiu autorização do seu administrador para analisar todos os documentos da empresa que fizessem referência aos anos 30, período em que importantes guerras aconteceram e que o ramo de armamento teve lucros exorbitantes. 

"Todos os países, quaisquer que sejam, capitalistas, comunistas ou fascistas, fabricam, vendem e compram armas, e não é raro que as usem contra os seus próprios naturais. Na boca do administrador de uma fábrica de armamento estas palavras quase soavam a blasfémia, como se tivesse dito, É assim, mas não o deveria ser."
A leitura dos três primeiros capítulos do livro demonstra que a história daquele homem comum, que mesmo fascinado por armas e guerras só desejava a paz da sociedade e o restabelecimento do seu casamento com felícia, visava criticas a estrutura social em que as guerras existem, muitas vezes, para fomentar o crescimento das empresas de armamento e favorecer interesses dos governos. 

Mesmo no texto incompleto, todas as características de Saramago estão presentes. Os diálogos sem ponto final e travessão, o excesso de vírgulas, os nomes próprios sem letras maiúsculas e, principalmente, o tom crítico e, ao mesmo tempo, humano. A caracterização de artur paz semedo, feita logo no primeiro capítulo, deixa clara a intenção do escritor de construir um personagem íntegro, sensível, humano, curioso e inteligente. 

A verdade é que possivelmente esse livro seria um grito de Saramago contra a guerra e a banalização da violência. Um grito em nome da paz. 
Destaque:

A edição da Companhia das Letras conta com três textos que discorrem sobre o trabalho de José Saramago e também sobre as razões que o motivaram a iniciar a história Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas. 

Fernando Gómez Aguilera afirmou no seu texto que para Saramago "a literatura é o que faz inevitavelmente pensar". De acordo com a sua análise, o escritor visava analisar intimamente a responsabilidade ética dos cidadãos diante da banalização do mal. 

Luiz Eduardo Soares fez uma análise da importância das indústrias de armamento e comentou que a obra, mesmo incompleta, foi um presente de Saramago, que interviu entre a janela da imaginação e da realidade, na tentativa de mudar alguma coisa.

Por fim, Roberto Saviano disse que o protagonista desse livro está em muitos cidadãos e que, inclusive, representa o que Saramago anunciou na obra Ensaio sobre a Cegueira: "Sempre chega um momento em que não há mais nada a fazer senão arriscar." 

Ao terminar a leitura desse livro sem final e ler todos os textos que conseguiram refletir a genialidade do escritor, não posso deixar de concordar com o que Roberto Saviano escreveu quando soube da morte de Saramago: "De todas as coisas que podia fazer José Saramago, morrer é a mais inesperada."

Esse livro é, acima de tudo, uma grande homenagem. Vale a leitura!

Quem tiver interesse, pode conferir no Youtube o que o escritor disse quando apresentou aos leitores a ideia do livro:


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