Crítica Eugene Zamyatin

Nós, de Yevgeny Zamyatin

01:39Universo dos Leitores



Minha estreia no Projeto Viagem Na Literatura, do blog Pausa Para Um Café foi com um livro russo surpreendente e responsável por influenciar o gênero das anti-utopias.

Como já contei por aqui eu adoro distopias e depois de falar sobre o conto A Nova Utopia, de Jerome K. Jerome, chegou a vez de apresentar  Nós, uma distopia russa de Yevgeny Zamyatin (ou em português Eugene Zamiatin). 

O enredo de Nós é apresentado pelo protagonista, um matemático e engenheiro chefe de um ambicioso projeto que envolve a construção da Integral - uma espaçonave destinada a exploração e conquista de outros planetas. 

O matemático como qualquer outra pessoa neste futuro distópico é identificado por letras e números, sendo chamado de D- 503. É ele quem nos mostra como é a vida mil anos após a Guerra de 200 Anos, da qual sobreviveram apenas dois décimos da humanidade. A parcela sobrevivente literalmente se isolou, erguendo uma enorme muralha física em torno do que viria a ser a mais metódica organização social já conhecida, liderada pela figura do Estado Uno, representada pelo Benfeitor. 

Curiosamente o muro é transparente assim como todas as edificações construídas nesta nova sociedade, o que representa o fim dos direitos à liberdade e à privacidade, uma vez que estes contrariam o ideal de coletividade imposto pelo Estado Único. Desta forma, utilizando o lema da clareza e transparência, o Estado mantém tudo sob seu controle e convenientemente usa a própria população como principal aliada neste rígido sistema de supervisão. 


"É claro que ser original significa ser diferente dos outros. Por consequência, ser original é o mesmo que violar a uniformidade."

Este estado totalitário e único é descrito com entusiasmo por D- 503, que segue a todas as regras com orgulho, se enxerga como um admirador da razão e dos números, e que desconhece seu próprio lado sensível e sonhador. 

Para se ter uma ideia controle do Estado, a ideia de amor romântico é totalmente abolida e as relações sexuais são mecanicamente programadas e agendadas. D-503  e 0-90 são ótimos exemplos da frieza que permeia estas relações. 

No entanto toda a convicção, toda a certeza e toda a segurança de D-503 é posta em xeque por uma única mulher que provoca uma reviravolta não apenas na vida do matemático, mas em toda a história. I-330 é a mulher que quebra regras, foge dos padrões e que vai provocar a primeira reação passional do matemático, sempre passivo a tudo e a todos.  

Os primeiros contatos com I-330 começam com repulsa e asco, e resultam posteriormente em um desejo incontrolável, que virá a ser fonte de inspiração e resultará em uma sede imensa de viver fora de toda aquela obviedade à que ele estava destinado pelo resto de seus dias. Sob a influencia de I- 330, o metódico matemático sofre uma grande transformação decisiva para os rumos da história, da Integral, de O-90 e até da própria I-330. Sem perceber ele começa a externar o seu lado mais sensível, negligenciado pela formação rígida e cega com a qual sempre esteve acostumado.

Ao publicar Nós em 1921, Zamiatin enfrentou grandes problemas por profetizar de forma tão negativa o posicionamento de Stalin, incomodou socialistas, tzaristas, foi perseguido e exilado na Rússia e viu seu livro ser proibido (razão pela qual é tão difícil encontrar traduções diretas do Russo).
Seu texto sarcástico e inteligente carrega características que se repetiram em outros grandes livros como Admirável Mundo Novo ou 1984 de George Orwell, e até em distopias YA's mais recentes como Divergente.  

Infelizmente Zamiatin não ocupa o lugar merecido entre os escritores do gênero, e mesmo muitos dos fãs mais apaixonados por distopias sequer ouviram falar do livro -  o que é uma pena diante da complexidade da obra e do profético cenário criado pelo russo que merece ser conhecido por todo fã de distopia e ficção científica. 

*Projeto Viagem na Literatura: Nossa próxima viagem é para a Itália, e você confere os detalhes e sugestões da Anna Shermack aqui


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