Christopher Hitchens Crítica

deus não é grande, de Christopher Hitchens

00:00Isabela Lapa

Hoje irei comentar um livro no mínimo polêmico: deus não é grande, de Christopher Hitchens, que estampa logo na capa a que veio: mostrar como a religião envenena tudo.

Antes de dizer qualquer coisa sobre o livro, não posso me refutar de fazer alguns esclarecimentos prévios. Em primeiro lugar, não é meu objetivo atacar, denegrir, criticar ou fazer apologia a qualquer religião específica ou à falta dela. Como se trata de um assunto muito delicado, e que está relacionado não apenas com as instituições religiosas em si, mas com a crença, muitas vezes profundamente arraigada na formação da personalidade de pessoas, qualquer controvérsia nesse campo tende a gerar polêmicas de ordem não racionais. Então, a segunda coisa que tenho a dizer é: se você se sentiu ofendido por qualquer coisa que escrevi aqui, se nossas opiniões divergem sobre esses assuntos, peço que seja feita uma reflexão sobre a natureza de tal distensão: se há um confronto entre crenças ou se há de fato uma ofensa de ordem pessoal. Em terceiro e último lugar, tentarei distinguir minhas opiniões das opiniões defendidas pelo autor do livro.

Começarei por uma distinção que eu defendo: religião é uma coisa separada da crença em uma divindade. Todos nós possuímos um conjunto de crenças que, em diversos graus, podem estar justificadas ou não. Acredito, por exemplo, que quando acordo pela manhã existirá um chão firme no qual eu pisarei ao me levantar da cama. Esse é o tipo de crença tão arraigada em nosso cotidiano, que sequer colocamos em questão todas as manhãs se de fato o chão estará ao lado da cama. Porém, a crença em uma ou várias divindades, embora um fenômeno verificado nas mais diversas culturas, é menos evidente e, por isso mesmo, mais frequentemente questionada. Porém, é perfeitamente possível que alguém acredite em uma divindade sem que seja necessária a sua adesão a alguma religião. Por religião, podemos entender uma estrutura de doutrinas, crenças e práticas que unem seus seguidores em uma mesma comunidade. Posso acreditar em um Deus no qual só eu acredito, sem precisar me vincular a qualquer grupo de pessoas. 


Após essas longas considerações, vamos ao livro. Christopher Hitchens não acredita em Deus. No primeiro capítulo de seu livro, o autor adverte que aquele que discorda de sua opinião está em desacordo com o próprio criador que o fez dessa maneira, ateu. Ele relata como os seus questionamentos acerca de Deus e da religião começaram ainda em sua infância, enquanto recebia uma educação cristã. Começou a perceber certas contradições, tais como porque Deus precisa ser louvado o tempo todo, sendo ele é o criador de tudo, ou porque Jesus curou apenas um cego e não a cegueira, bem como uma série de outras contradições entre os preceitos morais pregados pelos religiosos e a prática deles mesmos. Das reflexões infantis à maturidade intelectual, o autor passa a atacar a religião em geral de maneira mais contundente e argumentativa.


"Ainda persistem quatro objeções irredutíveis à fé religiosa: que ela representa de forma totalmente errada as origens do homem e do cosmo e que, por causa desse erro original, ela consegue combinar o máximo de subserviência com o máximo de solipsismo, que é ao mesmo tempo resultado e causa de perigosa repressão sexual, e que é, em última instância, fundamentada num pensamento desejoso de se auto realizar."

Mas a crítica mais contundente, a que o autor chama de mais suave e mais radical e devastadora, é a afirmação de que toda religião é criada pelo homem. A questão é que, cada relato de criação de uma religião, requer a crença de que aquela é a religião certa, de que aquele profeta ou guru é o verdadeiro escolhido por Deus e, assim, as religiões se proliferam aos montes (não consigo me esquecer do vídeo “Deus” do grupo Porta dos Fundos). 
Para justificar sua atitude perante a religião, o autor discorrerá longamente, capítulo após capítulo, sobre os malefícios da religião. Ele afirma que a religião mata ao provocar guerras em nome de uma crença, ao incentivar práticas prejudiciais às pessoas, ao se omitir frente à assuntos polêmicos, ao segregar e separar pessoas e provocar intolerâncias... Os casos relatados são vários, e polêmicos. 

Claro que, quem comete tais atos são sempre pessoas, mas pessoas que usam a religião como justificativa de seus atos, muitas vezes distorcendo a própria doutrina religiosa. O que o livro pretende mostrar é que os casos nos quais a religião é danosa não são casos isolados, mas a regra. Isso pode ser notado em toda polêmica envolvendo explicações científicas que confrontam crenças religiosas, os boicotes a pesquisas tidas como uma afronta a preceitos morais religiosos, a casos de ataque a pessoas pelo simples fato de professarem fé religiosa diversa. 

O livro esmiúça detalhes do novo e do antigo testamento e do corão em busca de relatos não lidos com frequência, e que mostrariam um lado mal de Deus e de seus seguidores, as superstições que se originam de falsos milagres, as atitudes controversas de líderes religiosos e que normalmente são ocultadas do conhecimento geral, as atrocidades cometidas em nome da fé, a origem e o fim das religiões.

"(...)
Como a religião tem se mostrado especialmente delinquente no assunto em que a autoridade moral e ética poderia ser contada como universal e absoluta, penso que temos direito a pelo menos três conclusões provisórias. A primeira é que a religião e as igrejas são fabricadas, e que esse fato gitante é óbvio demais para se ignorar. A segunda é que a ética e a moralidade são bastante independentes da fé e não podem derivar dela. A terceira é que a religião é — devido às suas alegações de permissão divina para sua práticas e crenças - não só amoral, mas imoral. O brutamontes ou psicopata ignorante que maltrata seus filhos deve ser punido mas pode ser compreendido. Aqueles que alegam um mandado celeste para a crueldade foram envenenados pelo mal e também constituem mais do que um perigo."
                                 

Mais do que questionar as virtudes das religiões e apresentar fortes argumentos, o autor apesenta uma defesa do secularismo e da “resistência” racional frente a qualquer outro tipo de crença religiosa. A conclusão do autor é que, se devemos basear nossas crenças em alguma justificação, a religião já não possui mais justificativa, e que as explicações religiosas não passam de mitos cujo valor são insignificantes frente aos avanços científicos. O caminho da razão seria não só um avanço em termos de conhecimento, mas também em termos morais.

"Primeiro temos de transcender nossa pré-história e escapar das mãos deformadas que tentam nos agarrar e nos arrastar de volta para as catacumbas e seus fedorentos altares, e culpados prazeres de sujeição e abjeção. "Conhece-te a si mesmo", diziam os gregos, sugerindo delicadamente os consolos da filosofia. Para clarear a mente para esse projeto, é necessário conhecer o inimigo, e preparar-se para combatê-lo."

Acredito na liberdade humana. Claro que o conceito de liberdade não é unívoco, mas em linhas gerais acredito que a pluralidade é um valor que deve ser cultivado na sociedade. Assim, ao mesmo tempo em que tenho direito a ter crenças, sejam elas quais forem, outras pessoas também possui o direito de acreditar e, se quiserem, de seguir qualquer religião. O grande problema é quando a existência de religiões é um entrave para a sociedade plural, ou seja, quando a religião interfere na vida de pessoas não religiosas. Acredito também que, quando a religião é transformada em instrumento de intolerância e terror, ela se torna um problema para a defesa dessa sociedade livre e plural. 

Eu recomendo esse livro? Bem, não é uma resposta simples. Mas para aqueles curiosos sobre o tema, é uma leitura fluída, embora com muitos fatos cuja veracidade precisariam ser verificadas. Para os ateus militantes, com certeza será uma fonte útil de argumentos e exemplos. Para aqueles que acreditam, pode ser um bom teste de fé.

Se Deus é ou não grande, realmente não tenho uma resposta simples, e penso que não há e nem haverá uma resposta definitiva em termos filosóficos. Agora, quanto à segunda parte do título do livro, de que a religião envenena tudo... bem, quanto a isso eu diria: o homem é o que ele é, e realmente não tenho motivos para acreditar que seria possível uma sociedade racionalmente organizada. A crença na razão apenas substitui a crença em Deus e, em última instância, é a crença de que o homem passaria a agir de maneira diferente. Se nem os tantos deuses que já existiram conseguiram mudar o homem, porque seria diferente com a razão?




Fernando Ruiz Rosario. Piracicabano, graduado em Filosofia pela UFSCar e mestrando na mesma área na UFMG. Gasta seu tempo livre com fotos, livros, séries, filmes, viagens e longas discussões.












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1 comentários

  1. "Se nem os tantos deuses que já existiram conseguiram mudar o homem, porque seria diferente com a razão?" => O questionamento de minha vida! As pessoas superestimam a razão e não percebem que não é como se ela estivesse guiando os povos para algum lugar néh?!?!? Não é como se nós triunfássemos em um mundo maravilhoso séculos após o Iluminismo, não é como se ateus fossem melhor que os crentes. Eu me inclino mais a seu ponto de vista que ao do autor. Sou uma pessoa de fé e minha opinião com isso já vem viciada, mas também sou historiadora e pelo pouco conhecimento que acumulei sobre a trajetória de nossa especie nesse planeta girante eu me pego pensando que o problema não é aquilo que acreditamos ou não e sim a forma que escolhemos dialogar com a crença do outro, esse toque de etnocentrismo que nos envenena essa capacidade de querer monopolizar o conhecimento da verdade, como se existisse UMA VERDADE. Se Deus não é grande, a Razão também não é esse chá gelado sabor pêssego todo! #SóAcho

    Pandora
    O que tem na nossa estante

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