Biografia Crítica

Minhas Lembranças de Paulo Leminski, de Domingos Pellegrini

00:00Universo dos Leitores

“O Leminski é uma usina.”
Itamar Assunção

Domingos Pellegrini, na década de 60, tinha dificuldades de entender Paulo Leminski. Filiado ao pensamento da esquerda tradicional, não conseguia decidir se o poeta era um alienado, um formalista ou simplesmente um alcoólatra que dizia impropérios com a boca e no papel. A solução para isso? Para variar, a aproximação que, aos poucos, vai se tornando amizade. Até que Pé Vermelho, como é chamado por Leminski, é chamado para escrever uma biografia do amigo, apelidado de Polaco. O resto é só “histórias de vida” que, segundo Pellegrini, é um pleonasmo, uma vez que toda história é necessariamente de vida. Entretanto, para Leminski não seria um pleonasmo, mas sim, um “pleorgasmo”. Vamos conhece-lo!

Minhas Lembranças de Paulo Leminski, de Domingos Pellegrini, é a biografia escrita pelo autor sobre um de nossos maiores poetas. Desde o começo da obra, no entanto, o autor faz questão de dizer que essa não será uma biografia tradicional, contando fatos de vida, mas sim de uma trajetória afetiva entre os dois, entre relatos deuma amizade que atravessou décadas. Além disso, é também a tentativa da recuperação do procedimento literário de Leminski: um projeto radical de fusão de estilos, tempos e pensamentos, sem filiação ou raízes em qualquer formalismo, apenas da ideia pura e ideias de fazer da poesia um projeto de vida.
O que chama atenção logo de partida é a forma como Pellegrini vai catalogar os capítulos. Apontando Leminski com um poliedro, ou poliedra, uma vez que o autor adorava pedras, vai dividir a obra de acordo com o que chama de “facetas” do poeta, assim consegue abarcar essa caleidoscópica vida, possivelmente não em sua totalidade, mas com uma abrangência que poderia se perpetuar infinitamente. Alguns desses capítulos são: O poliedro, o mestiço, o estrategoísta, o cerebrelétrico, o polivivente, o anarquista, o estoico. Estas facetas, estão até representadas em um poema:

Toda joia um dia
já foi lava, todavia
condensou-se
e lapidada
cada faceta irradia
sua luz poliedra:
pedra que se faz poesia.
O fato é que, desta forma, o autor-biógrafo-amigo, atinge um dos pontos principais da obra do poeta curitibano que é sua capacidade de transitar por entre o universo intelectual, cult e pop. Essa sua ambivalência, ou trivalência, ou polivalência lhe coloca em lugar privilegiado e raro de ver a poesia como algo em si e não como algo útil. Chega a chama-la de “inutensílio” e nisso vai travar uma batalha contra o Pellegrini da época e a esquerda careta:

“Para os quatro, poesia é prosa. A despeito do nível de acabamento artesanal de muitos dos poemas, percebe-se que sua preocupação é mais com a ética que com a estética. Mais de catequese que de invenção. Muitos dos poemas são verdadeiros contos.”

Leminski, então, escreve sua própria prosa, o Catatau, que no fundo é mais uma geração poética de alta periculosidade para a arte cerebral do pensamento tradicional. Catatau reescreve um tempo, fundando um Brasil cuja origem é desarticulada com a história, uma memória rizomática caótica e sem fontes. Algo que ele vê também lá nos Sertões de Euclides de Cunha, principalmente na parte da Terra que Pellegrini vai achar maçante e Leminski vai ver como a única parte interessante.
A outra face de Leminski, no entanto, se destaca por uma intrínseca incapacidade de ajustamento. O livro conta um relato em que ele é levado a um concurso de poesia onde lhe é perguntado qual o melhor poema do ano. Polaco diz ser um grafiti que ele leu no muro cuja inscrição diz: “PQNA VOLTE!”, escrito da rodoviária até se perder de vista. Trata-se de um poeta que percebe justamente aquilo tratado acima: poesia e vida estão intimamente ligadas e inseparavelmente conectadas.

Só para não deixar de mencionar, o livro também trata das soluções (porque Leminski não chamaria de problema) do poeta com o álcool, em geral com a vodka, com quem tinha uma longa parceria por não deixar rastros como o bafo. Retrata também a vida simples, das roupas surradas, da pouca higiene, mas creio que isso é desimportante frente a tudo que Leminski representa no campo da arte.
Para finalizar, um poema também escrito em muros, mas dessa vez pelo próprio poeta. Um dia, trabalhando em uma empresa de publicidade, andava para lá e para cá, quando é mandado sentar por seu chefe. De pronto, o poeta se levanta, vai até o outro lado da rua e rabisca nos muros:

Sentado
Não tem sentido


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