Crítica Editora Companhia das Letras

O Gato e o Escuro, de Mia Couto - uma história contra o medo

00:00Universo dos Leitores

Leitores, é com enorme prazer que apresentamos a vocês a Terezinha Pereira, nossa nova colunista. Para começar, nada melhor que uma resenha sobre Mia Couto, um escritor tão querido! 
Medo, pavor, temor, horror. Quem nunca pelou-se de medo meio a uma situação verdadeira de perigo ou mesmo imaginária? Ter medo do escuro, de almas penadas, da própria sombra.... Ui! Ui! Quem já sentiu tais ou outros medos? Ou não sentiu........ Começo assim por causa de um livro que li nesses dias. Li. Reli. Tresli. A história está catalogada como literatura infantil, infanto-juvenil. Mas, sei não........

O autor, Mia Couto, nasceu num país do lado de lá da África, em Moçambique, numa terra pequena chamada Beira, que fica à beira do Oceano Índico. Diz ele que lá, aprendeu a ser menino por toda a vida. Que lá, a maior parte dos habitantes não sabe ler, não sabe escrever. Porém... porém... eles sabem contar histórias. Melhor ainda. Sabem ouvir. Que as gentes de lá guardam a meninice dentro de si e têm a crença de que o olhar de criança é importante para ser feliz e produzir felicidade para os outros. Por causa desse seu pensar, escreveu para os mais pequenos uma história contra o medo. Como personagem escolheu um gato de cor, ora uma, ora outra e o pôs no escuro. À história, deu o nome de “O gato e o escuro”**.

“O gato e o escuro” foi publicado em Portugal em 2001. Ao Brasil, esse presente chegou neste ano de 2008. Um mimo para os meninos pequenos e também os de mais tamanho e tempo de vida, os que conservam em seu interior a meninice, nem que seja um tiquinho só. Graças ao bom senso da editora “Companhia das Letrinhas”, o livro foi editado com a grafia do português de Moçambique. Um deslumbramento de escrita recontada nos desenhos da premiada ilustradora mineira Marilda Castanha. Para Marilda, ilustrar as várias imagens poéticas do livro de Mia Couto, desvendar os medos escuros _ com suas luzes e suas sombras e ilustrar as várias imagens poéticas foi delicioso. Para o leitor........ sei não. Sei não, se teria eu palavras para explicar o que fiquei pensando desse conto. Delicioso? É pouco.

Contar ao leitor a história “O gato e o escuro”, isso não vou. Mas, vou deixar-lhe algumas dessas imagens poéticas que a ilustradora captou no texto, para que faça a sua imagem da história. Mais. Caso o legente ainda não tenha sido surrupiado de toda a sua curiosidade e ainda tenha intenção de saber o que há além do horizonte, correrá o risco de, ligeiro, sair em busca de “O gato e o escuro”.

Prepare-se para viajar pela poesia que vem enxertada na narrativa. Para começar, vou-lhe dar uma imagem. Mas só do comecinho. O tal gato personagem, que traspassa de uma cor para outra e para outra, aparece preto-escuro, sentado no cimo do livro da própria história. E as imagens poéticas? Acontecem:

“... o gatinho gostava passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite. Faz de conta o pôr-do-sol fosse um muro. Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente.” Consegue imaginar uma cena assim? 

Lá vão outras:

“Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam.” “À medida que avançava, seu coração tiquetaqueava.” “Só quando desaguou na outra margem do tempo ele ousou despersianar os olhos.” “Nada sobrava de sua anterior gateza. E o escuro, triste, desabou em lágrimas.” “E os olhos do escuro se amarelaram. E se viram escorrer, enxofrinhas, duas lagriminhas amarelas em fundo preto.” “Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro mora quem lá inventamos.” “_ ... Somos nós que enchemos o escuro com nossos medos.” “ Metade de seu corpo brilhava, arco-iriscando.” “Quando a mãe olhava o escuro, a mãe ficava com os olhos pretos. Pareciam cheios de escuro. Como se engravidassem de breu, a abarrotar de pupilas.” 

E aí? Pode imaginar a história? Pode ver um gato preto, enroscado do outro lado do mundo? (E.... qual seria o outro lado do mundo? )

Diz o autor que, “se fizermos como o gato desta história, o Mundo inteiro se transforma num brinquedo. E nós poderemos, então, perder o medo de sermos felizes.”



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