A Caderneta Vermelha, de Antoine Laurain


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Notas da caderneta de Laure, encontrada por Laurent:

“Gosto de passear ao longo da água na hora em que as pessoas saem da praia.
Gosto do nome do coquetel “americano”, mas prefiro o “mojito”.
Gosto do cheirinho de hortelã e de manjericão.
Gosto de dormir no trem.
Gosto dos quadros que representam paisagens sem personagens.
Gosto do cheiro de incenso nas igrejas.
Gosto de veludo e de pelúcia.
Gosto de almoçar em um jardim.
Gosto de Érik Satie. COMPRAR UM GRAVAÇÃO DA OBRA COMPLETA DE SATIE.”

Era uma manhã comum na vida do livreiro Laurent quando ele se deparou com uma bolsa abandonada em cima de uma lata de lixo no seu caminho rotineiro. E esse pequeno fato mudou tudo na sua vida a partir de então.

Uma bolsa contendo vários itens pessoais e uma caderneta com anotações curiosas feitas pela mulher, dona do objeto perdido e encontrado por Laurent, dão o tom à história escrita por Antoine Laurain. O cenário é a charmosa cidade de Paris e o ponto alto é a forma com que a busca de Laurent para encontrar a dona da bolsa muda toda a percepção de sua vida.

Trata-se de uma história sensível e delicada, repleta de referências à obras e escritores literários, já que tanto Laurent, quanto Laure, são leitores assíduos.

É gostoso imaginar a busca de Laurent pela doce Paris, mas uma Paris de encantos delicados, longe dos pontos turísticos, revelando o real dia-a-dia dos parisienses.

Mas o melhor mesmo em “A caderneta vermelha” é celebrar o amor. A pureza da descoberta de pequenos detalhes que nos prendem. É sonhar com um mundo em que duas pessoas se esforçam verdadeiramente para se encontrar, algo tão distante do que vemos hoje no nosso mundo real. 

                                                                                
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Verdade Ao Amanhecer, de Ernest Hemingway


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A literatura sempre teve dificuldade de entender o outro. Assim, o outro sempre foi o alvo da literatura: tocar o que não se pode tocar, chegar em um ponto de silêncio – que só a arte tem – em que podemos revelar algo significativo entre nós e o estranho outro, esse hospedeiro que carregamos conosco. A literatura de Hemingway parece perceber o outro até com certa obsessão: quem leu o Velho e o Mar sabe da grande disputa entre este eu e a natureza voraz. Em Verdade ao Amanhecer, Hemingway conta uma história de outros, distantes, mas que ele acha que pode tocar.

Verdade ao Amanhecer é uma espécie de relato biográfico-ficcional de Hemingway no tempo em que passou na África ao lado de sua mulher Mary. O livro conta a história do autor liderando um grupo de viajantes e moradores locais em busca de um leão que deveria ser morto por sua esposa até o dia do nascimento de Jesus, o Natal. Misturando ficção, biografia e reflexões, esta obra, uma das menos conhecidas do autor, funciona como uma coda à obra do autor, dando-nos mais pouco de sua forma absolutamente peculiar de contar as coisas do mundo.

Verdade ao Amanhecer logo de cara nos apresenta a estranheza de um lugar: A África, vista pelos olhos de Hemingway é tal qual descrita nos relatos dos americanos: um lugar selvagem, de grandes forças naturais, de um poder da fé local capaz de ver religiões e religiosos em todo canto. Assim, esta imagem estereotipada, típica do autor – que sempre a desfaz mostrando as próprias fraquezas – é apresentada para, logo em seguida, mostrar sua fragilidade diante daquele mundo. Hemingway tenta a todo custo apreender este outro como num espelho que olha apenas para si:

"Quando tudo é fantástico e você inventa suas mentiras e vive nesse estranho mundo em que tem tudo, então é simplesmente fantástico e às vezes encantador, e eu rio de você. Me sinto acima de tanto absurdo e irrealidade. Por favor, tente me compreender, porque eu também seu irmão."
Se é verdade que a África é um lugar ainda “não-ocidentalizado”, é também verdade que o papel de humanidade em torno da África é latente na obra. Hemingway, ao lado de sua esposa a procura deste leão, se torna, na verdade, o próprio leão do livro, na medida em que os gestos, as ações, o poder que ele detém ali naquele lugar, revelam, na verdade, apenas uma pobreza da dinâmica humana em tomar o mundo pelas mãos, ao mesmo tempo em que nos mostra como a ordem da natureza com suas mudanças diárias é muito mais forte do que somos capazes de suportar. Sobre essa necessidade americana inata de liderar, de mandar, o autor diz:

"Há pessoas que gostam de exercer o mando, e em sua ânsia por assumi-lo impacientam-se com as formalidades para toma-lo de outro. Gosto de exercer o mando, pois o considero a mistura ideal de liberdade e escravidão. Um homem pode sentir-se feliz com sua liberdade, e quando esta se torna muito perigosa, pode refugiar-se no dever."

Verdade ao Amanhecer, de certa forma, revela estas forças que nos dão as pequenas verdades do mundo. Assim, com a linguagem típica do autor podemos acompanhar suas ironias, suas tardes em meio ao álcool, seus relatos sobre autores da época e muito mais. Um livro especial e essencial para amantes da boa literatura. Se é longo é só porque a literatura às vezes não dá conta do mundo.


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A Amiga Genial, de Elena Ferrante


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Quando eu li sobre o lançamento do livro A Amiga Genial, primeiro livro da chamada "Série Napolitana", fiquei super interessada pela sinopse e senti vontade de ler a história. Acontece que em meio à correria da vida e à loucura da falta de tempo, eu acabei me esquecendo e só voltei a lembrar no início do ano, quando vi algumas listas de melhores leituras de 2015 e o livro estava em quase todas. Imediatamente anotei o nome na minha agenda e só agora consegui um tempo para ler. Que ótimo que consegui, afinal, trata-se de um livro incrível. 

Escrito por uma italiana que é super discreta, não tira fotos, não dá entrevistas, e se utiliza de um pseudônimo para as publicações, o que conserva um mistério por trás de todas as suas obras, o livro conta a história de Elena Greco, uma mulher que ao descobrir sobre o desaparecimento de Lila, uma amiga de infância, decide relembrar as memórias dos momentos que elas vivenciaram juntas, em uma tentativa de eternizar aquela relação e aquelas lembranças. 

"Como sempre Lila exagerou, pensei.
Estava extrapolando o conceito de vestígio. Queria não só desaparecer, mas também apagar toda a vida que deixara para trás.
Fiquei muito irritada.
Vamos ver quem ganha desta vez, disse a mim mesma. Liguei o computador e comecei a escrever cada detalhe de nossa história, tudo o que me ficou na memória."

Elena conta, de forma direta e muito sincera, a forma como surgiu a amizade entre elas e descreve, com muita intensidade, diversos momentos que elas passaram uma ao lado da outra. Acompanhamos a narrativa e descobrimos informações sobre as famílias das personagens, os amigos, a estrutura escolar, os problemas enfrentados nas sala de aula, a descoberta da sexualidade, a luta pelos objetivos etc. 
O interessante é que na medida em que vamos conhecendo as personagens, percebemos o quanto elas são diferentes e o quanto a relação entre elas é pautada por um misto de admiração e inveja. Ao mesmo tempo em que estavam sempre juntas e permaneciam assim por se sentirem mais fortes na presença uma da outra, as duas viviam em constante disputa e Elena não poupa sinceridade ao narrar os momentos em que se sentia inferior à amiga, sempre tão inteligente, descolada e corajosa. 

A narrativa por vezes é muito descritiva, mas o livro tem um ritmo gostoso e as personagens são tão bem caracterizadas que é impossível não se envolver com elas e não se emocionar com as situações difíceis que elas enfrentam. A infância das duas foi marcada por violência física e psicológica e o universo que elas conheciam não era nem um pouco leve ou agradável. 

"Nosso mundo era assim, cheio de palavras que matavam: crupe, tétano, tifo exantemático, gás, guerra, torno, escombros, trabalho, bombardeio, bomba, tuberculose, supuração. Atribuo os medos inumeráveis que me acompanharam por toda a vida a esses vocábulos e àqueles anos.”

A obra, ao mesmo tempo que fala sobre o vínculo de amizade, mostra uma infância marcada pela violência e apresenta informações sobre o cenário pós guerra na Itália, período em que as mulheres sofriam com a submissão em relação aos homens e não possuíam voz ativa ou direito de estudar e escrever. No caso das protagonistas, por exemplo, Elena conseguiu continuar os estudos, mas Lila não.
Esse é um livro com uma premissa simples, mas que encanta pela profundidade da narrativa e pela sinceridade da personagem. Uma leitura que vale a pena e que deixa muitas pontas abertas, o que mantém acesa a curiosidade para o segundo volume da série.

Espero que aproveitem a dica, porque vale a pena! 

“Habituadas pelos livros da escola a falar com competência do que nunca tínhamos visto, era o invisível que nos excitava.”







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Promoção: Os Pescadores, de Chigozie Obioma


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Olá Leitores!

Nós já comentamos no blog sobre o livro Os Pescadores, sucesso da Globo Livros, lembram? Pois é... Gostamos muito da história e decidimos realizar a promoção de um exemplar. 

Para participar é bem simples... Então vamos lá:

1 - Curta a nossa página no facebook; e

2 - Clique em "Quero Participar", neste link aqui.

Só serão aceitos participantes com endereço no Brasil e os prêmios serão enviados em até 15 dias após o resultado. A responsabilidade pelo envio é do blog.

O resultado será divulgado no dia 24 de junho e o sorteado terá 3 dias úteis para encaminhar os dados (nome completo e endereço) para o e-mail universodosleitores@gmail.com.

Boa sorte :)


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O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger


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Publicado no ano de 1951, esse livro marcou uma geração, conquistou público no mundo inteiro e é sem dúvida uma referência quando o assunto é juventude. 

Com uma linguagem simples e sem rodeios o livro significou muito para a população jovem da época em que foi publicado pelo fato de que pela primeira vez os temas relacionados aos medos, às inseguranças e às experiências dos jovens foram abordados sem nenhum pudor e com muita sinceridade.

“(...) Naquele tempo eu tinha dezesseis anos — estou com dezessete agora — mas de vez em quando me comporto como se tivesse uns treze. E a coisa é ainda mais ridícula porque tenho um metro e oitenta e cinco e já estou cheio de cabelos brancos. Estou mesmo. Um lado da minha cabeça — o direito — tem milhões de cabelos brancos desde que eu era um garotinho. (...)”

Narrado em primeira pessoa, a obra conta a história de Holden Caulfield, um jovem de 17 anos que foi expulso do colégio interno em que estudava e precisou voltar mais cedo para casa. Sem amigos e sem paciência para as pessoas em geral, ele passa um período sozinho em um hotel e aproveita o tempo para frequentar bares, conhecer mulheres, viver a vida de forma livre e se descobrir. 
Diferente do que pode parecer por essa descrição, Holden faz tudo isso não por ser rebelde ou indisciplinado, mas sim por estar deprimido e sem saber exatamente o que esperar da vida. Repleto de questionamentos e inseguranças, ele experimenta várias emoções e tenta ultrapassar, a cada dia, um novo limite. 

“Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se eu contasse qualquer coisa íntima sobre eles.”

O interessante da obra é que mesmo tendo sido escrita na década de 50, ela reflete muito o perfil dos jovens de hoje, o que provavelmente justifica o sucesso. Holden, assim como a maioria dos adolescentes, tem dúvidas sobre família, amizade, sexo, amor, futuro etc.

Vale destacar que esse é um livro simples, que segue um ritmo do início ao fim, e que se destaca pelo contexto social que apresenta. Para apreciar a leitura é preciso contextualizá-la, caso contrário, a narrativa poderá parecer monótona ou pouco interessante.






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Eu passei pelo inferno, de Juta Bauer


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Faço parte do time que correu para comprar livros assim que a Cosac Naify anunciou o encerramento de suas atividades. Uma das "heranças" da minha última compra foi o quadrinho "Eu Passei Pelo Inferno", de Juta Bauer. 

Assim que vi o quadrinho fui seduzida pelo título e pela curiosidade de conhecer a história do "homem que já esteve no inferno". 


A breve história narra a vida de um homem que está sempre correndo, em todos os sentidos. Sua vida passa diante de seus olhos mas ele parece não se importar, segue sempre em frente sem se preocupar com nada ou ninguém ao seu redor.

O homem corre tanto que acaba morrendo em um acidente e sua alma vai para o inferno após enfrentar o juízo final. Chegando lá ele percebe que o inferno é aparentemente bem melhor do que imaginava. 























O inferno possui várias divisões como o "Inferno do Jogo", o "Inferno do Bem-Estar" ou "Inferno da Cultura". Ele opta pelo inferno do bem estar, onde passará eternamente desfrutando de uma sauna e uma piscina. O que no início parecia infinitamente agradável, passa a ser uma tortura graças ao tédio que o consome. Assim, o homem clama por uma segunda chance de reencarnar e ter a oportunidade de viver novamente. Quando ele finalmente consegue autorização para reencarnar uma surpresa um tanto quanto irônica o aguarda na terra e na nova vida.

Com muita simplicidade, Jutta Bauer propõe em pouquíssimas páginas uma reflexão bastante interessante sobre a vida e principalmente sobre a forma como vivemos. A história é cíclica, e mostra que o inferno não está tão distante quanto imaginamos.

                                             

                                                                          




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Bordados, de Marjane Satrapi


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Conversas dia adentro, confidências, memórias, segredos, sentimentos velados, dor, amor, CUMPLICIDADE.

Depois de conhecer  o arrebatador quadrinho autobiográfico Persépolis, fiquei curiosíssima para ler Bordados, o último trabalho de Marjani Satrapi publicado pela Companhia das Letras através do selo Quadrinhos na Cia em 2010.

Na cultura iraniana, Bordado é uma cirurgia de reconstrução de hímem para atestar a virgindade de uma mulher, já que preservá-la é motivo de honra. Uma outra conotação para bordado nesta mesma cultura é o bate papo equivalente ao nosso "tricô", quando jogamos conversa fora, trocamos confidências, etc. 

O bordado, (bate papo) é seguido por um chá chamado Samovar, que tem todo um ritual de preparo e de apresentação. Após o almoço, as mulheres do ciclo familiar de Marjane se reúnem na sala para aguardar o chá e para iniciar os "bordados". 

Bordando suas histórias, essas mulheres tecem e exibem memórias de forma crua e honesta mostrando que há muito mais por trás da figura submissa que costumam representar.  Na medida em que o "bordado" ganha corpo, as conversas ficam cada vez mais íntimas e reveladoras e estas mulheres tem a oportunidade de se expressar e revelar mesmo os mais profundos segredos. Sexo, costumes, dor, amor, independência são alguns dos temas confidenciados durante o Samovar com muito humor e sarcasmo na maior parte do tempo.



Nunca é demais lembrar que, a sociedade iraniana é pautada pelos costumes religiosos e pela prevalência da cultura patriarcal, que oprime e sufoca a voz de suas mulheres. Por esta razão o bordado representa um símbolo de resistência e uma comovente manifestação de liberdade. Resistência porque, uma vez longe da mão opressora e dos olhares julgadores dos homens estas mulheres podem se revelar, expondo seus sentimentos mais velados. E também é um sinal de liberdade, já que muitas mulheres iniciam a vida sexual antes do casamento e recorrem à cirurgia para não serem julgadas, ou mesmo excluídas.



No chá elas ganham  voz, vez e exercem o protagonismo de suas histórias sem se preocupar com a censura social que tanto as oprime. Marjane deixa isto bem claro ao narrar a cena em que seu avô interrompe a conversa e tenta se aproximar, sendo imediatamente expulso da sala esposa para preservar a intimidade de todas ali presentes. 

Se em Persépolis temos Marjane como protagonista, em Bordados somos conduzidos por todas as mulheres que participam do Samovar. Marji é uma expectadora na maior parte do tempo e integra este grupo de mulheres reunidas para se expressarem. 

No quadrinho Bordados, temos muitas características semelhantes à Persépolis: o traço simples e monocromático de Marjani Satrapi, a manifestação ideológica, o contexto social como pano de fundo e principalmente a pauta feminista agregada ao senso de humor característico de Marjane Satrapi. Imagino que vocês já tenham percebido o quando gostei do livro. A leitura foi sensacional e mais uma vez me encantei pelo trabalho e pelas histórias da talentosa Marjane Satrapi, que é uma contadora de histórias incrível. Espero que você também tenha a oportunidade de conhecer este trabalho brilhante. 




                                                                         

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