Camilla Guimarães Contos de Terror

Contos de Terror: Eu vou te achar, por Camilla Guimarães

12:39Kellen Pavão



Foto: Divulgação - 


Acordei com o assobio do vento que entrava pela janela. A cortina voava e o céu estava com aquela cor que anuncia uma tempestade que vai chegar. Fechei a janela do quarto, e desci as escadas pra fechar outras que eu poderia ter me esquecido, já que eu havia pegado no sono mais uma vez, enquanto estudava pra minha prova final da faculdade. Meus pais e minha irmã viajaram para nossa casa que fica no interior de Minas Gerais. Papai gostava de ir pra lá sempre que podia, para descansar corpo e mente do trabalho maçante na Polícia Civil. 


Moramos em um condomínio de prédios, em uma parte tranquila da Região Metropolitana de Belo Horizonte, mas papai sempre se preocupou muito com segurança, pois via de perto o que as pessoas são capazes de fazer. Moramos na cobertura em um prédio de 6 andares, e o elevador vive em manutenção, e algumas vezes, a única saída é usar as escadas.

Bem, voltando ao dia em que fui acordada pelo barulho do vento...Toda a casa estava com as luzes apagadas. Eu devo ter dormido por umas 3 horas, e quando peguei no sono, o sol ainda não tinha se posto. Quando eu estava nas escadas do nosso apartamento, ouvi um barulho parecido com uma explosão, e olhando pela janela da sala, notei que toda a rua estava sem luz. Era um fato esperado: toda vez que alguma tempestade se aproxima, ficávamos sem luz por um tempo que parecia uma eternidade.

Eu já estava voltando pro meu quarto, quando ouvi o som da maçaneta da porta da sala. Congelei. Tentei em uma fração de segundos, me lembrar se eu tinha trancado a porta, rezando pra não ter me esquecido como de costume. Silêncio. Eu conseguia ouvir meu coração disparado e senti uma vontade instantânea de fazer xixi. Mais silêncio. Tomei coragem e fui até a sala pra me certificar de que a porta estava fechada. Pelo corredor, vi que ela não estava aberta e não fui me certificar de que estava trancada. O medo e a ansiedade era tanto, que voltei pelas escadas e fui correndo pro banheiro antes que eu não conseguisse mais controlar a minha bexiga. Quando peguei o papel, ouvi a porta da sala se fechando.

Cheguei na escada, chamei pela minha mãe, pelo meu pai e não tive nenhuma resposta. Meu peito começou a doer, não sabia mais se eu estava mesmo vendo coisas na escuridão ou se eram só meus olhos e meu nervosismo que estavam fazendo aquilo comigo. Eu precisava pensar rápido no que fazer, mas minhas pernas pareciam não obedecer. Eu tremia e não saía do lugar.

Me lembrei da arma que meu pai guardava no escritório dele, no primeiro andar. Desci as escadas, me esforçando pra não fazer nenhum barulho. Entrei no escritório, achei a arma, coloquei o carregador, destravei, engatilhei e fui andando na ponta dos pés pelo corredor. Cheguei sem fazer nenhum barulho até a sala e não havia ninguém. Meu coração continuava batendo, mas nesse momento, eu já sentia ele bater tão forte que parecia que explodiria. Eu precisava controlar o medo e a ansiedade, pra poder ouvir qualquer barulho na casa.

Fui até a cozinha, nada. Escritório, sala de jantar e armário do corredor, nada. Ouvi um barulho no segundo andar. A essa hora, os trovões e o vento que espancavam as janelas, me deixavam ainda mais nervosa. Maldita hora que eu não quis ir com minha família porque queria ficar em casa estudando. Subi as escadas, pé ante pé, quando cheguei ao último degrau, a madeira da escada rangeu, eu olhei pro degrau apavorada, quando olhei pra cima senti a pancada na cabeça e apaguei.

Acordei amarrada na sala, amordaçada, com uma pano dentro da minha boca, com muita dor de cabeça e muita tontura. Mesmo que eu tentasse gritar, ninguém ouviria porque o som da tempestade estava alto demais, e no mesmo andar que moro, há apenas um apartamento que está fechado pois nosso vizinho estava viajando. Tentei em vão, soltar minhas mãos que estavam amarradas pra trás da cadeira, a única coisa que consegui foi sentir dor. A corda estava me prendendo tão forte, que eu mal conseguia respirar. Uma pessoa apareceu à minha frente, e eu só consegui ver a silhueta. Meus olhos já estavam acostumados com a escuridão àquela altura, mas eu não conseguia identificar o rosto.

Ele chegou próximo ao meu ouvido e me mandou responder sim ou não, movimentando a cabeça. Eu não conseguia identificar o sussurro. Ele falava tão baixo, que eu jamais conseguiria reconhecer a voz. Ele deu a volta por trás, e no meu outro ouvido perguntou se eu estava com medo, e eu chorei aflita e respondi que sim com a cabeça. No meu outro ouvido, ele disse que eu deveria mesmo ter medo pois ele faria comigo o que meu pai havia feito com o filho dele há alguns anos.

Me desesperei. Tentei gritar em vão. Senti náusea e uma vontade muito forte de vomitar. Era nítido que meu medo não incomodava e que ele estava mesmo decidido a se vingar do meu pai, e nada do que eu fizesse, mudaria aquilo.

Minhas próximas horas foram de muito horror. Ele começou cortando meus dedos dos pés com um alicate. A dor era insuportável, eu vomitei e quase me sufoquei com meu vômito algumas vezes. Ele parou e eu achei que aquilo seria tudo. Não tinha forças pra chorar ou gritar.

Ele estava fora do meu campo de visão. Aquilo me fez achar que eu estava livre. Ele voltou e tampou meu rosto com uma toalha. Me afogou, mas não o suficiente pra me matar. Não sei por quanto tempo, só sei que parecia uma eternidade. Depois de muito tempo, ele parou, tirou a toalha do meu rosto, o tecido que estava na minha boca já estava muito encharcado, o que dificultava muito minha respiração. Ele sussurrou no meu ouvido, que eu era forte e que teríamos muita coisa pra fazermos juntos ainda. Desmaiei.

Acordei com ele batendo no meu rosto. A casa ainda escura e a tempestade não parecia ter diminuído. Ele sussurrou que era pra eu ficar acordada, porque tínhamos coisas pra fazer juntos ainda. Pegou novamente o alicate e cortou agora os dedos das minhas mãos. Não parecia que ele tinha pressa em fazer aquilo. Acho que a intenção era de que eu sentisse toda a dor e de que aquilo estava proporcionando muito prazer a ele. Eu rezava, eu enjoava, eu desmaiava, e quando acordava, ainda estava acontecendo.

Agora, ele sussurrou que tiraria o pano que estava na minha boca e não queria ouvir gritos. Ele tirou e eu sussurrava pra ele parar. Que meu pai pagaria o que fosse preciso, mas que ele não me machucasse mais. Ele ficou de frente pra mim, com algo que se parecia com uma tesoura. Me mandou colocar a língua pra fora, dizendo que me castigaria por ter falado e desobedecido. Eu implorava pra ele não continuar. Ele segurou e cortou minha língua. Desmaiei mais uma vez. Dessa vez, quando acordei, a luz havia voltado. Nenhum sinal dele. Nenhum barulho. Tinha finalmente acabado?

Senti a lâmina atravessar meu corpo. Ele acertou meu coração pelas costas. Três dias depois, minha família me encontrou morta na sala. Na porta de casa, um bilhete: eu vou te achar.

Continua

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