Cegueira Moral Crítica

Cegueira Moral, de Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis

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“Privacidade, intimidade, anonimato, direito ao sigilo, tudo isso é deixado de fora das premissas da sociedade de consumidores ou rotineiramente confiscado na entrada pelos seguranças. Na sociedade de consumidores, todos nós somos consumidores de mercadorias, e estas são destinadas ao consumo; uma vez que somos mercadorias, nos vemos obrigados a criar uma demanda de nós mesmos.”


Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês que estuda o desenvolvimento da sociedade moderna em meio à evolução da tecnologia e à preservação de uma estrutura burocrática de Estado. 

No seu último livro publicado no Brasil, Cegueira Moral, ele abordou, por meio de um diálogo com o filósofo Leonidas Donskis, a falta de sensibilidade dos homens modernos em meio às dores e dissabores dos seus semelhantes. Em um mundo onde a tecnologia e as redes sociais estão mais em destaque que a política e os direitos humanos, o que existe é a sociedade do espetáculo: se você não estiver conectado, se não tiver status, se não for capaz de participar do mercado de consumo e se não estiver incluído em debates polêmicos e agressivos, você simplesmente não existe. 

“Um único ato de crueldade tem mais possibilidade de atrair para as ruas uma multidão de manifestantes que as doses monotonamente administradas de humilhação e indignidade a que os excluídos, os sem-teto, os degradados são expostos dia após dia.”
O grande problema disso tudo é que enquanto toda a utilização das redes sociais vem amparada por um discurso de liberdade de expressão e aproximação entre as pessoas, o que ele realmente causa é o aprisionamento e a perda de qualquer resquício de intimidade e discrição. Neste ponto, Bauman recorre aos argumentos apresentados em Vigilância Líquida para ressaltar que atualmente a internet e as redes sociais são as melhores ferramentas de controle do ser humano: nós, iludidos pelo ideal de liberdade, conferimos ao Estado todas as informações relevantes sobre a nossa vida e as nossas vontades, nos tornando reféns de uma sociedade hierarquizada, burocrática e vazia de valores. Enquanto isso, os poucos que se recusam a aderir ao sistema, perdem forças e se tornam seres invisíveis. 

“Em nossos mercados de consumo congestionados, novos produtos tendem a surgir para só depois procurar suas aplicações.Muitos deles, talvez a maioria, são descartados sem encontrar nenhuma utilidade. Por isso, tentação e sedução sobem ao topo das preocupações de marketing e consomem a parte do leão dos custos dessa atividade.” 
Dividido em 5 diálogos, o livro faz referências interessantes a alguns períodos históricos, discorre sobre o surgimento do conceito de “mal” e sobre a presença de um “diabo”, aborda a estrutura burocrática de poder e a forma como até a política perdeu importância diante da tecnologia. 

Merece destaque o capítulo denominado Universidade do Consumo, em que Bauman discorre sobre a mudança de paradigma da sociedade atual, que não valoriza o esforço e não incentiva a melhoria, transformando em descartáveis as pessoas que erram, que não se atualizam, que não consomem e que não se rendem às tentações inúteis do mercado.


“Como a negligência moral está crescendo em alcance e intensidade, a demanda por analgésicos aumenta cada vez mais, e o consumo de tranqüilizantes morais se transforma em vício. Por conseguinte, uma insensibilidade moral induzida e manipulada se torna uma compulsão ou uma “segunda natureza”: uma condição permanente e quase universal – e as dores são despidas de seu papel salutar de prevenir, alertar e mobilizar. Com as dores morais aliviadas antes de se tornarem verdadeiramente perturbadoras e preocupantes, a teia de vínculos humanos tecida com os fios da moral torna-se cada vez mais débil e frágil, vindo a descosturar-se.” 

O livro também possui várias referências literárias, entre elas 1984, de George Orwell, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, A possibilidade de uma Ilha, de Michel Houellebecq e Nós, de Yevgeny Zamyatin. 

O que atrai a atenção para a leitura, além da abordagem atual, é a visão crítica e lúcida de Bauman. Os questionamentos levantados por Leonidas também são essenciais e instigantes, o que torna a leitura interessante e reflexiva. 

Esse não é um livro sobre uma sociedade, mas sim para uma sociedade. Leitura obrigatória. 

“A primeira vítima de uma vida apressada e da tirania do momento é a linguagem – atenuada, empobrecida, vulgarizada e esvaziada dos significados de que seria portadora, enquanto os “intelectuais”, os cavaleiros errantes das palavras significativas e de seus significados, são suas baixas colaterais.”


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