As Caçadas de Pedrinho Biblioteca Azul

As Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato

00:00Universo dos Leitores

Ter um livro de Monteiro Lobato em mãos traz nostalgia. Foi o gosto de infância que senti ao abrir as Caçadas de Pedrinho. Me recordo de ter assistido algumas das adaptações de O sítio do pica-pau amarelo para TV, mas mesmo tendo sido um leitor assíduo quando criança, nunca havia lido nada desse grande escritor brasileiro. Ainda nas primeiras páginas reparei que a edição estava adaptada às novas normas ortográficas da Língua Portuguesa e que o vocabulário de Lobato flui facilmente, embora faça referências a um universo rural, com nomes de plantas, animais e expressões populares e, às vezes, pouco atuais.

O livro narra duas histórias. A primeira conta a caçada de uma onça que rondava a mata aos arredores do sítio. Demonstrando sua valentia temperada com uma grande dose de travessura e aventura, Pedrinho organiza uma expedição para encontrar a fera. Munidos com a imaginação e com armas fabricadas no próprio sítio, Pedrinho, Narizinho, Emília, a boneca de pano desprovida de coração, o Visconde de Sabugosa, um nobre feito sábio feito de sabugo de milho, e o Marquês de Rabicó, um medroso porco que adora comer, saem pela floresta em busca do grande felino. No entanto, o empreendimento das crianças do Sítio causa grande temor entre os animais da floresta, que pretendem se vingar. O desfecho da história vai depender da criatividade e astúcia de todos os personagens.

"Os rastos de onça estavam impressos na terra úmida. Ao fazerem tal descoberta o coração dos cinco heróis bateu mais apressado. Dos cinco não; dos quatro, porque, como todos sabem, Emília não tinha coração."
Ambientando em um contexto diferente de tudo que conhecemos, a história pode ter um desenrolar que pareça estranho aos dias de hoje, o que gerou em mim um certo incomodo.Embora exista espaço para reflexão sobre a defesa da natureza, no momento em que os bichos se organizam para se defenderem da possível ameaça dos humanos, a atitude dos personagens do sítio claramente destoa daquilo que podemos considerar aceitável na relação entre homens e natureza. Que exista conflito entre feras selvagens e o espaço que o homem ocupa não é novidade. Considerando a época no qual foi escrito, e o contexto da vida no campo, o desfecho do livro se justifica, contudo, não parece se adequar ao espírito de conscientização ambiental de nossos dias, que inclui a preservação da fauna.
 
"Quando a vida dos animais selvagens se vê ameaçada de perigo geral, as velhas rivalidades cessam. A jaguatirica deixa de perseguir lebres. A lontra esquece a fome e pode até conversar amavelmente com os peixes de que se alimenta. O cachorro-do-mato passa perto do porco-espinho sem que este erice as agulhas. Assim, ao ouvirem as palavras da capivara, tanto o gavião como os bem-te-vis esqueceram a briga e vieram sentar-se diante dela, um do lado do outro, como se nada tivesse havido entre eles."

O capítulo que mais faz jus à fama de Lobato de defensor da natureza é o que retrata a reunião dos animais, quando deixam de lado suas diferenças, para discutirem sobre a ameaça dos humanos. Porém, sem adotar uma atitude conciliadora e pacífica, a história se desenrola pelo triunfo da sagacidade dos homens ante a fragilidade dos animais, sendo que Emília se utiliza da própria natureza para espantar os invasores. O que se pode aprender com o desfecho da história é que toda ação tem uma reação e, nesse caso, ao interferirem na vida dos animais, Pedrinho e seus amigos tiveram uma resposta da natureza.

"Que terras? – replicou a capivara. – Não há mais terras habitáveis neste país. Os homens andam a destruir todas as matas, a queimá-las, a reduzi-las a pastagens para bois e vacas. No meu tempo de menina podíamos caminhar cem dias e cem noites sem ver o fim da floresta. Agora quem caminha dois dias para qualquer lado que seja dá com o fim da mata. Os homens estragaram este país."
A segunda história relata a aparição de um rinoceronte, que havia fugido de um circo do Rio de Janeiro, e que optara em viver nas imediações do sítio. Sem saber o que fazer, Dona Benta avisa o governo sobre a presença do animal, que logo envia sua equipe para capturá-lo. Marcado por um tom crítico à política e à burocracia governamental e sua ineficiência, essa história tem um fim mais amigável, ressaltando a esperteza da boneca Emília.

"Fazia dois meses que o governo se preocupava seriamente com o caso do rinoceronte fugido, havendo organizado o belo Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte (...). Essa gente perderia o emprego se o animal fosse encontrado, de modo que o telegrama de Dona Benta os aborreceu bastante. Em todo caso, como outros telegramas recebidos de outros pontos do país havia dado pistas falsas, tinham esperança de que o mesmo acontecesse com o telegrama de Dona Benta. Por isso vieram. Se tivessem a certeza de que o rinoceronte esta mesmo lá, não vinham!"

A verdade é que aquele gostinho inicial terminou um pouco frustrado. Sempre tive a ideia de que Lobato fosse um defensor da natureza, mas não me pareceu algo tão óbvio assim conforme folheei as páginas do livro. A atitude dos personagens poderia ser explicada pela época na qual o livro foi escrito, mas mesmo assim acredito que se exige reflexão sobre os atos ali praticados, bem como sobre a relação do homem com a natureza.

Quanto à edição da Biblioteca Azul, me chamou a atenção o destaque dado às ilustrações históricas de antigas edições. Com uma breve biografia dos ilustradores no final do livro, profissionais que muitas vezes sequer são citados, o livro destaca o pioneirismo de Monteiro Lobato no uso de ilustração em obras infantis e adultas.
Polêmica sobre Racismo

Recentemente, essa obra e o escritor foram alvos de grande crítica por racismo. Há algumas citações de cunho pejorativo e racista ao se referir à tia Nastácia, a empregada negra do sítio. Adicionalmente, o autor defendia a eugenia, acreditando que a miscigenação era prejudicial ao desenvolvimento do país. Curiosamente, o livro é encerrado com a seguinte frase de Tia Nastácia:

"Tenha paciência – dizia a boa criatura. – Agora chegou minha vez. Negro também é gente, Sinhá..."

Vivendo em uma sociedade democrática, onde o valor da liberdade é um dos fundamentos, acredito que a obra deva ser lida e discutida. Em nome dos mesmos valores democráticos, acredito que posições que não aceitem a diversidade e preguem a intolerância precisam ser discutidas publicamente. Não podemos nos calar diante de qualquer caso de racismo ou cerceamento de liberdade, nem tentar justificar casos de agressão aos direitos básicos dos homens com alegação de ser uma obra que retrata uma determinada época. 

Acredito que acontece com Monteiro Lobato o mesmo que ocorre com outros grandes escritores, pensadores e líderes, tais como Aristóteles e Gandhi, que, apesar de possuírem uma trajetória de defesa de causas louváveis, também possuem episódios que denigrem suas biografias. Longe de querer julgar ou rotular qualquer pessoa, acredito que é através da discussão pública e crítica que se pode detectar e refletir sobre valores que julgamos incoerentes com nossa civilização, possibilitando o livre e crítico posicionamento sobre essa e outras questões polêmicas.


Fernando Ruiz Rosario. Piracicabano, graduado em Filosofia pela UFSCar e mestrando na mesma área na UFMG. Gasta seu tempo livre com fotos, livros, séries, filmes, viagens e longas discussões.





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