A Amiga Genial Crítica

A Amiga Genial, de Elena Ferrante

00:00Universo dos Leitores

Quando eu li sobre o lançamento do livro A Amiga Genial, primeiro livro da chamada "Série Napolitana", fiquei super interessada pela sinopse e senti vontade de ler a história. Acontece que em meio à correria da vida e à loucura da falta de tempo, eu acabei me esquecendo e só voltei a lembrar no início do ano, quando vi algumas listas de melhores leituras de 2015 e o livro estava em quase todas. Imediatamente anotei o nome na minha agenda e só agora consegui um tempo para ler. Que ótimo que consegui, afinal, trata-se de um livro incrível. 

Escrito por uma italiana que é super discreta, não tira fotos, não dá entrevistas, e se utiliza de um pseudônimo para as publicações, o que conserva um mistério por trás de todas as suas obras, o livro conta a história de Elena Greco, uma mulher que ao descobrir sobre o desaparecimento de Lila, uma amiga de infância, decide relembrar as memórias dos momentos que elas vivenciaram juntas, em uma tentativa de eternizar aquela relação e aquelas lembranças. 

"Como sempre Lila exagerou, pensei.
Estava extrapolando o conceito de vestígio. Queria não só desaparecer, mas também apagar toda a vida que deixara para trás.
Fiquei muito irritada.
Vamos ver quem ganha desta vez, disse a mim mesma. Liguei o computador e comecei a escrever cada detalhe de nossa história, tudo o que me ficou na memória."

Elena conta, de forma direta e muito sincera, a forma como surgiu a amizade entre elas e descreve, com muita intensidade, diversos momentos que elas passaram uma ao lado da outra. Acompanhamos a narrativa e descobrimos informações sobre as famílias das personagens, os amigos, a estrutura escolar, os problemas enfrentados nas sala de aula, a descoberta da sexualidade, a luta pelos objetivos etc. 
O interessante é que na medida em que vamos conhecendo as personagens, percebemos o quanto elas são diferentes e o quanto a relação entre elas é pautada por um misto de admiração e inveja. Ao mesmo tempo em que estavam sempre juntas e permaneciam assim por se sentirem mais fortes na presença uma da outra, as duas viviam em constante disputa e Elena não poupa sinceridade ao narrar os momentos em que se sentia inferior à amiga, sempre tão inteligente, descolada e corajosa. 

A narrativa por vezes é muito descritiva, mas o livro tem um ritmo gostoso e as personagens são tão bem caracterizadas que é impossível não se envolver com elas e não se emocionar com as situações difíceis que elas enfrentam. A infância das duas foi marcada por violência física e psicológica e o universo que elas conheciam não era nem um pouco leve ou agradável. 

"Nosso mundo era assim, cheio de palavras que matavam: crupe, tétano, tifo exantemático, gás, guerra, torno, escombros, trabalho, bombardeio, bomba, tuberculose, supuração. Atribuo os medos inumeráveis que me acompanharam por toda a vida a esses vocábulos e àqueles anos.”

A obra, ao mesmo tempo que fala sobre o vínculo de amizade, mostra uma infância marcada pela violência e apresenta informações sobre o cenário pós guerra na Itália, período em que as mulheres sofriam com a submissão em relação aos homens e não possuíam voz ativa ou direito de estudar e escrever. No caso das protagonistas, por exemplo, Elena conseguiu continuar os estudos, mas Lila não.
Esse é um livro com uma premissa simples, mas que encanta pela profundidade da narrativa e pela sinceridade da personagem. Uma leitura que vale a pena e que deixa muitas pontas abertas, o que mantém acesa a curiosidade para o segundo volume da série.

Espero que aproveitem a dica, porque vale a pena! 

“Habituadas pelos livros da escola a falar com competência do que nunca tínhamos visto, era o invisível que nos excitava.”







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