Afonso Cruz Cia das Letras

Flores, de Afonso Cruz

00:00Universo dos Leitores

É indiscutível que a primeira coisa que chama atenção nesse livro é a capa. Posso dizer que é uma das capas mais lindas da Companhia das Letras e o interessante é que ela faz jus à beleza, à profundidade e à sensibilidade da obra que ela apresenta. Conhecer o escritor português Afonso Cruz foi uma das melhores e mais incríveis surpresas do ano, e certamente irei atrás de outras obras dele. 


"- Sabe porque não somos felizes? - perguntou ele.
- Desespero, solidão, medo?
- Não. Por causa da realidade."

Com uma linguagem simples, fluida e poética, esse livro conta a história de um homem que está em uma fase difícil da vida, se sentindo completamente entediado, distante da filha e vendo o seu casamento ruir. 

Enquanto se preocupa com situações banais do dia-a-dia e sofre por não conseguir resolver pequenos problemas, ele não consegue perceber que existe um mundo inteiro à sua volta. Da mesma forma, ele nunca demonstra solidariedade ou compreensão com as dificuldades dos outros, desconhecendo até mesmo as situações enfrentadas pelos vizinhos e pela própria esposa. 
Certo dia, de forma surpreendente e inesperada, ele descobre que um dos seus vizinhos, o Senhor Ulme, que lhe parecia um homem estranho e que gostava de falar coisas sem sentido, estava com uma doença degenerativa grave, razão pela qual não possuía lembranças sobre o passado e sobre a própria história. Com isso, ele decide ajudar esse senhor e sair em busca dos acontecimentos que ficaram esquecidos. 


"A poesia até para acabar com a guerra servia, era isto que o senhor Ulme anunciava antes de começar a dizer um poema: "A poesia serve para acabar com a atrocidade, é uma bala na cabeça do horror, é uma pedra atirada contra este cenário de mal gosto,este cenário que acreditamos ser a realidade"."

Talvez essa seja a história de um narrador que se perde na própria vida não consegue perceber o seu presente, e de um Senhor sem lembranças do passado e sem expectativas do futuro, mas que olha para o mundo com um olhar sensível e diferente. Talvez essa seja a história de um encontro oportuno, entre duas pessoas tão diferentes, mas que precisam da mesma coisa: atenção e companhia! 

Enquanto busca as informações sobre o Senhor Ulme, o nosso narrador percebe que uma pessoa pode ser vista de várias formas pelas outras, mas que isso não muda aquilo que ela realmente é. Ele percebe que o olhar que os outros tem sobre nós depende não necessariamente da gente, mas da forma como aquela pessoa enxerga a vida. Um mesmo fato pode ser visto com alegria por um, e com tristeza por outro. 


"Tenho certeza de que a vida morre com a rotina e não com a morte, e que o hábito nos petrifica, um dia olhamo-nos ao espelho e estamos transformado em estátuas, faz lembrar a mulher de Lot, quando ela e o marido saem de Sodoma, estando esta a ser destruída devido à iniquidade dos seus habitantes, e lhe dizem para não olhar para trás." 
Ao entender tudo isso, o narrador perdido no sentido da própria existência descobre que é preciso ter coragem para lutar pelos próprios sonhos e para tornar a vida melhor, afinal, o tempo passa e o que fica para trás pode não voltar.


"Podemos olhar para uma frase e percebemos que aquilo é um mar, uma maneira de ser feroz, de navegar, de viajar, de ter peixes, de ter lágrimas. Eu acreditava que as frases eram armas capazes de mudar, de lutar, de resistir. Armas capazes de disparar um futuro." 

Esse é um livro sobre a vida, a morte, as perdas, o amor, a amizade e a importância das lembranças. Com personagens intensos e muito cativantes, esse é um livro sobre pessoas e como elas podem se transformar com o passar dos anos e com os baques da vida.

O interessante é que além de tudo isso, esse também é um livro com um viés político e uma crítica social super relevante. Uma história arrebatadora e marcante, que sem dúvida se torna inesquecível...

Vale a pena conferir!


"- Também temos um nome em latim?
- Temos um nome universal.
- Como é que se sabe esse nome?
- É o nome da pessoa que amamos. É uma ideia tão bonita que parece uma letra pimba: experimenta pronunciar o nome da pessoa que amas e vai ouvir o teu verdadeiro nome."







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