Crônica Escritor Marcelo Lemes

Preste atenção nos cadarços de seus tênis

00:00Universo dos Leitores

Abrir a janela todas as manhãs, ver a sujeira de um chão deteriorado pelos anos, torcer o nariz por causa disso, e nem sequer olhar para o alto, em busca de uma luminosidade nova estampada em um céu inédito, é um erro grave, quase irreparável. Tudo bem; é necessário se perder na escuridão para sorrir depois ao se reencontrar na claridade. Mas abraçar a ideia pessimista de que o destino é um vilão frio, disposto a pulverizar qualquer resquício de felicidade, é idiotice. 

Imagine-se numa biblioteca. Corredores de estantes repletas das mais variadas obras. Livros que atravessaram gerações. Ideias que cativaram a imaginação de leitores incontáveis, em tempos e culturas diferentes. Você analisa as capas, tenta se identificar com algum título, lê um trecho qualquer de páginas avulsas, até escolher — por algum motivo desconhecido — um único exemplar. Leva-o para casa e, uma semana depois, lê a última página dele. Fecha o livro, olha para o tempo, experimenta um prazer inédito e percebe na alma uma leveza tão simples e, ao mesmo tempo, essencial. Enxerga um brilho diferente nas coisas. Depois, você retorna à biblioteca, devolve o livro e retoma a rotina de mãos vazias. Nunca mais volta a analisar capas e títulos.

Na vida, fazemos isso o tempo todo e, infelizmente, não notamos o equívoco. Na maioria das vezes, é tudo uma questão de escolha. Sorrir ou fechar a cara, degustar uma taça de vinho ou ignorá-lo dizendo que já conhece o gosto. Claro que generalizar seria um erro, pois as intenções do destino podem sim nos provar o contrário, oferecendo-nos chuva quando havíamos escolhido sol. No entanto, é preciso saber separar o joio do trigo. Parece uma ilusão patética, mas não existe vida sem felicidade, muito menos felicidade sem vida. 

Certa vez, uma garotinha corria sorridente com outras crianças, pelo pátio de uma festa infantil. Estava com o cadarço desamarrado. A mãe lhe chamou a atenção. Ela não deu bola, continuou correndo. Caiu, ralou o joelho e foi chorando ao colo da mãe. Esta, em vez de advertir a filha, disse: “Que maravilha você ter se machucado”. A garotinha continuou com o rosto molhado de lágrimas, sem entender o comentário da mãe. Nunca mais se esqueceu de amarrar os cadarços. Ela cresceu, casou-se e teve um filho. Ensinou-lhe a nunca deixar os cadarços desamarrados. Ele obedecia à risca a orientação materna. Dia qualquer, o cachorro da família comeu os cadarços do tênis predileto do garoto. A mãe procurou cadarços novos em todas as lojas de calçados da cidade e não encontrou. Indignada, fez o que pôde e o que não pôde, o possível e o impossível, e abriu uma loja de calçados, na qual jamais faltariam cadarços novos. Ela cuidou do comércio durante alguns anos, mas faleceu antes de ver o filho se formar na faculdade. Ele, inspirado pela saudade e motivado pelo diploma, decidiu assumir os negócios da mãe. Multiplicou o número de lojas e se tornou um dos empresários mais ricos daquele país. 

Agora, não saia por aí chutando pedras descalço, só para ver se uma luz te conduza a um caminho melhor. Isso pode se tornar um vício, uma obsessão, te ferir e fazer você acreditar na supremacia do fracasso. Apenas observe, analise e procure fazer a escolha certa, mesmo sem ter muita certeza disso. O simples fato de ver um sorriso bonito em um rosto carrancudo pode bastar. E se você detectou, nesta crônica, clichês e ideias ultrapassadas, meus parabéns, você continua com os cadarços desamarrados. 

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