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O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe

01:25Kellen Pavão


Depois de ler O Paraíso São os Outros - de Valter Hugo Mãe,  fiquei bastante curiosa para conhecer outros trabalhos do autor português, que também é editor, artista plástico, apresentador de televisão e cantor.

Definido como um "tsunami linguístico" por  José Saramago (que por sinal tem uma grande influência nas obras de Mãe), o escritor tem um dom especial para contar histórias através de uma belíssima prosa poética, com uma habilidade ímpar.

Em O Filho de Mil Homens, conhecemos o pescador Crisóstomo, que sonha em se tornar pai. O pescador, que tem quase quarenta anos e é solteiro, sai à procura de um filho que acredita estar em algum lugar do mundo e ainda foi não encontrado. A empatia com o personagem de Crisóstomo é inevitável, e desde o início nos envolvemos com o seu drama. Para sua felicidade ele conhece Camilo, um adolescente órfão que fica emocionado ao conhecer Crisóstomo, feliz pela possibilidade de ter um pai.



"Tão estranho que depois de tanto tempo e tanta mágoa pudesse pensar no amor. Amanhecera vazia, sem ninguém dentro de si mesma, e foi como se encheu com a ideia de afinal ser impossível esquecer o amor. Porque o amor era espera e ela, sem mais nada, apenas esperava. A Isaura sabia que amava alguém por vir, amava uma abstração de alguém no futuro. Ela esperava o futuro, e esperar já era um modo de amar. Esperar era amar. Certamente, amava de um modo impossível o futuro. Disse: eu pensava que o amor era bom. E chorou sem qualquer convulsão porque aceitou chorar. Aceitou chorar."
Crisóstomo preenche o vazio de seu coração, e sente que está quase completo- só lhe falta o amor de uma mulher. E é a partir daí que a história se divide em vários capítulos e personagens, todos com seus dramas, suas histórias, seus medos e suas dores.


Se por um lado Valter Hugo Mãe pinta um retrato poético da vida através da linguagem, em outros expõe a vida com todo o seu realismo através do sofrimento de seus personagens. Dentre os vários protagonistas dessa dura realidade conhecemos uma anã estuprada por quase todos os moradores de um pequeno povoado,  um homossexual discriminado até mesmo pela própria mãe, uma mulher rejeitada pelo namorado assim que se envolve sexualmente com ele e uma mãe que acorda com um sotaque estrangeiro sem nenhum motivo aparente. Todos estes personagens enfrentam seus dramas pessoas e sofrem com a falta de aceitação social, e ao longo da leitura percebemos como as histórias estão conectadas. 

Valter Hugo Mãe nos leva a pensar sobre a hipocrisia e o falso moralismo da sociedade, a falta de empatia com as diferenças e a a forma cruel com que muitas pessoas são julgadas simplesmente por não se enquadrarem nos padrões tradicionais. 

Através de uma costura perfeita, o autor entrelaça as histórias e mostra como estamos conectados enquanto sociedade e como estamos ligados uns aos outros, como mostra o trecho a seguir:
“O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais de mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se nossos mil pais e nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.” 

A Globo Livros, lançou através do selo Biblioteca Azul uma edição lindíssima  com capa soft touch, papel especial, bordas amareladas e ilustrações de Agostinho Santos.

 Um livro que destaca a importância do amor e mostra como somos responsáveis pelos outros, de forma sensível e inteligente. Recomendadíssimo!

Isabela   também já postou uma resenha apaixonante aqui no blog! Clique aqui para conferir!


*Este livro é uma cortesia Globo Livros

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Ficha Técnica:
Capa comum: 224 páginas
Editora: Biblioteca Azul; Edição: 1ª (17 de agosto de 2016)
Idioma: Português
ISBN-10: 8525062537
ISBN-13: 978-8525062536
Dimensões do produto: 21,8 x 14,8 x 1,6 cm
Peso do produto: 322 g

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2 comentários

  1. Uma bela resenha para um livro belo!

    “Via-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se para evitar a sua companhia. Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía.”

    Valter Hugo Mãe (1971). O filho de mil homens. São Paulo: Cosac Naify,2012. p. 11

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    Respostas
    1. Fico feliz que tenha gostado Terezinha! O Filho de Mil Homens é mesmo um livro maravilhoso! =)

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