Elza Soares Júlia Cavalhares

Elza Soares, por Zeca Camargo

14:33Júlia Cavalhares



ATÉ O FIM 

A escolha deste livro para a penúltima resenha do ano não foi por acaso. Ela deriva do fato de que este é um livro de verbos, mais do que substantivos. É um livro da ação, do ressurgimento, do lutar, do resistir e do redescobrir. E o ano de 2019 foi, para mim, uma possibilidade de redescoberta do prazer em ler.

Eu que sempre declarei minha dificuldade em ler biografias, apesar dos desafios para terminar a leitura, me percebi encantada pela narrativa (nada parcial) conduzida por Zeca Camargo sobre a vida da filha de lavadeira Elza Gomes da Conceição, ou simplesmente, Elza Soares. 

“Então, agora, me responda, menina, de que planeta você veio?” 
Elza: “Do seu planeta, seu Ary!” 
O apresentador, já perdendo a paciência, insistiu: “E posso perguntar que planeta é esse?” 
Parecia que a resposta já estava na ponta da língua: “Do planeta fome.”

Nascida em uma época em que o preconceito e a repressão contra mulheres e negros eram ainda maiores do que nos dias atuais, Elza usou de sua voz para resistir e provar ao mundo do que era capaz. Obrigada a se casar ainda menina, sofreu violência doméstica, precisou esconder que era a potência de sua voz que permitia colocar comida no prato de seus filhos, viveu o luto de sua prole, sofreu com a vergonha e a distância da família e sentiu a impotência de não poder se despedir de seu pai. Sobreviveu.

Da primeira aparição em um programa de calouros aos sucessos recentes, o livro em resumo é isso: uma sucessão de sobrevivências, de quase fins. E nesse sentido, o título de “Mulher do fim do mundo” (nome do álbum lançado por Elza em 2015) é totalmente coerente com a vida de uma mulher que várias vezes fez o “fim” virar “começo”, incluindo o fim do amor.

E por falar em amor, o verbo amar chama especial atenção ao longo do livro. É de surpreender, como o ato de amar, para uma figura forte e resistente como Elza, parece por vezes, ser sinônimo de dor e de anulação de sua força enquanto mulher. Me fez refletir, no âmbito das relações afetivas apresentadas no livro, o quanto é tênue a linha entre a entrega e a submissão.

Pode botar aí: “Elza é para homens fortes. E eu ando ruim de achar homem assim – pelo menos para conviver.”

Mais do que a história de uma artista, é um livro sobre empoderamento feminino, sobre resistência, sobre ser e se fazer mulher, sobre quebrar preconceitos. É lindo, é forte, é de querer ouvir Elza cantar até o fim! Talvez por isso o livro não acabe, pelo menos não do modo convencional, com “ponto final”, mas em um caminho aberto por reticências que leva daqui, até o fim do mundo!



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