Camilla Guimarães Destaque

Para toda a eternidade, de Caitlin Doughty

00:31Camilla Guimarães


Já se pegou pensando sobre a morte? E sobre o que você quer que seja feito com seu corpo após a sua partida? Essa decisão e a forma de encarar o pós- morte é diferente entre as pessoas e incrivelmente diferente entre culturas. Apesar do assunto ser ainda um tabu, o livro "Para toda a Eternidade" trata do assunto de forma leve e com um toque de humor, nos levando a refletir sobre como gostaríamos de ser tratados depois de morrer. Confesso que já pensei algumas vezes sobre isso, porque sempre achei muito frio e muito rápida a forma como nos despedimos de alguém.

Caitlin Doughty, é dona de uma funerária nos EUA, e nos conta como são algumas culturas post mortem em países como Japão, México, Espanha e Estados Unidos, e como em alguns desses países existem grupos que tentam manter ou adotar rituais antigos que são muito diferentes da maneira higienista praticada pelo mundo Ocidental (leia-se EUA).

"Canibalizar seu querido papai como fazia o povo Callatiae pode não ser pra você. Também não é pra mim; sou vegetariana (brincadeira, pai). Mesmo assim, é errado alegar que o Ocidente tem rituais de morte superiores aos do restante do mundo. Mais ainda, devido à corporatização e à comercialização dos cuidados funerários, nós ficamos para trás do resto do mundo no que diz respeito a proximidade, intimidade e rituais relacionados à morte."

Vou citar o caso que mais mexeu comigo, pois é a forma como eu quero meu corpo seja tratado. (Não custa sonhar, não é mesmo?)

Na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, um grupo de voluntários da graduação cuidam com a Dra J. da Estação de Pesquisa de Osteologia Forense. A autora foi até esse lugar, guiada pela arquiteta Katrina Spade, que se juntou a Dra J. e seu grupo, para fazer "compostagem de corpos". O método consiste em colocar o corpo em "uma mistura rica em carbono que, em quatro a seis semanas, reduziria o corpo (com ossos e tudo) a terra.". Achei a ideia incrível. Alimentar a terra com o nosso corpo. Depois dessas quatro a seis semanas, a família pode recolher a terra e utilizar em seu jardim, por exemplo. Vida nova a partir da minha morte.

A autora cita outras culturas igualmente interessantes. É comum vermos as Caveiras Mexicanas e alguns já devem conhecer um pouco sobre a Festa dos Mortos. Essa é uma curiosidade do livro, pois ela conta que essa festa foi "reinventada" após o filme James Bond, onde o personagem começa o filme vestido de Caveira e andando pelas ruas do México durante esse evento. Outra história maravilhosa é a das ñatitas, tradição da Bolívia, onde algumas pessoas são escolhidas através de sonhos, parar encontrarem cabeças de humanos de verdade, e esses crânios são venerados por pessoas que fazem pedidos, favores e agradecem as graças que são alcançadas. (Sim, existem cabeças humanas fora de cemitério e longe do restante dos corpos, na Bolívia, e esse ritual religioso hoje é respeitado até mesmo pela Igreja Católica).

O livro é recheado de boas histórias que me fizeram refletir sobre como seguimos os rituais caros do ocidente, sem analisar a forma como gostaríamos mesmo de ser tratados. Um assunto tão complicado que não discutimos isso ainda em vida, na maioria das famílias, por ser considerado um assunto tão mórbido. Não há dúvidas de que a morte é um negócio altamente lucrativo. Me lembro que minha avó gostaria de ser cremada e pagamos R$15.000,00 na época. Não há muitas opções, ou paga-se por um lote em um cemitério, ou utiliza-se os cemitérios públicos, ou pagamos um valor alto pela cremação. Tudo isso de forma fria, sem um tempo maior para se despedir do corpo de alguém que deixa tantas histórias e tantas saudades.

"Para Sarah, aceitar a morte do filho não era uma tentativa de apagar seu medo da mortalidade; ela sabia que tal tarefa era impossível. Ela só queria se envolver com a morte, poder falar o nome dela. Como Paz dizia: visite-a, deboche dela, a acaricie."

Eu indico a leitura desse livro. Eu li após muito tempo de pausa por não conseguir me prender a nenhum outro durante essa pandemia. Eu comecei vários e não consegui ler mais de 10 páginas e esse livro eu consumi muito rápido por ser um assunto muito interessante e uma escrita muito simples.


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