Gerais Imre Kertész e a vida depois de Auschwitz

Imre Kertész e a vida depois de Auschwitz

00:00Universo dos Leitores

“Precisamos de um livro pequeno e barato”. Éramos um grupo de estudantes ao redor de uma mesa, num apartamento em Viçosa-MG. Estávamos empolgadas com a criação de um pequeno clube do livro, naturalmente inspiradas pelo nosso gosto compartilhado por leitura, mas tínhamos algumas preocupações. Um livro menor teria mais chances de ser lido por todas até o próximo encontro, o que seria essencial para o funcionamento do clube. E o preço do livro deveria ser adequado ao nosso contado orçamento de estudantes.

Após algumas propostas e discussões, escolhemos Liquidação, do húngaro Imre Kertész. O autor ganhou o Nobel de Literatura em 2002 e o livro estava na lista “Dez livros fundamentais de autores estrangeiros”, da hoje inexistente revista Bravo! A sinopse prometia a história do suicídio de um dramaturgo e o confronto do indivíduo com o poder da História. Parecia interessante. Gostamos da sinopse. Gostamos do título. Compramos os volumes e dividimos o frete.


Só faltava ler. E Liquidação se inicia assim:

Chamemos o nosso homem, o herói da história, de Amargo. Imaginamos um homem e, para ele, um nome. Ou, ao contrário: imaginamos o nome e, para ele, o homem. Embora isso tudo seja secundário, pois o nosso homem, o herói da história, chama-se, na realidade, Amargo (p. 9).

Esse pequeno trecho, meio confuso, me agradou. Assim como o restante do livro. Uma tarde foi suficiente para ler suas cento e doze páginas e ficar encantada. Amargo é personagem de Liquidação, amigo de B., o escritor que sobreviveu a Auschwitz, mas pôs fim à própria vida. Ao longo do livro, Amargo busca um trabalho que acredita que B. tenha deixado como legado. O manuscrito, como saberemos depois, foi destruído pela ex-mulher de B., a pedido do próprio B. Em sua carta de suicídio, B. se despede sutilmente, com algum ar de resignação: “Não me levem a mal. Boa noite”.

Esse pequeno livro nos provocou e garantiu boas discussões no clube. Diversos elementos fazem referência a Auschwitz. A tragédia aparece na criança que não nascerá, no casamento fracassado, na brincadeira em que ter vindo de Auschwitz representava o pior sofrimento...

Kertész é escritor e tradutor. De origem húngara, foi enviado para Auschwitz em 1944 e depois deportado para Buchenwald e Zeitz. Voltaria ainda a Buchenwald, de onde foi libertado mais tarde. Saiu do regime nazista para, em sua volta à Hungria, viver sob o regime comunista e o terror stalinista. Publicou alguns livros com a temática do Holocausto e foi premiado com o Nobel de Literatura em 2002, pela escrita que confirma “a frágil experiência do indivíduo face à arbitrariedade bárbara da História”. Na ocasião de sua premiação, relatou como foi ter vivido sob regimes opressivos:

(...) Por razões ligadas à língua que eu falava, decidira, depois do esmagamento da revolução de 1956, ficar na Hungria. Assim, pude observar, não mais como uma criança, mas como adulto, o funcionamento de uma ditadura. Vi como uma nação inteira pode ser levada a negar seus ideais e observei os primeiros movimentos, cuidadosos, no sentido da acomodação; compreendi que a esperança é um instrumento do mal e que o imperativo categórico de Kant, a ética, não passa de uma serviçal moldável da autopreservação (A língua exilada, p. 13).

Sua história de vida talvez tenha feito seus livros compartilharem alguns elementos, com muitas referências a Auschwitz e a ditaduras. Kertész foi diversas vezes acusado de escrever sobre um único tema – o Holocausto. Em O Fiasco, publicado em 1988 e lançado em 2004 no Brasil, Kertész escreve:

(...) Quantas outras situações havia ainda somente no mundo totalitário de Buchenwald? Tenho quase receio de levantar a questão, indeclinável, que está latente em mim: no final, que mãos produziram os pesos de papéis feitos de crânios, as capas de livros e cúpulas de abajures de pele humana curtida?... (p. 52).

Aliás, questionamentos sobre o cárcere e o que torna as pessoas capazes de executar atrocidades estão entre as melhores partes de O Fiasco. A dura realidade imposta aos prisioneiros é confrontada com as obrigações que transformam pessoas comuns em torturadores e opressores.

(...) Porque eu próprio, naturalmente, ou melhor, diria que instintivamente, partia do princípio de que um preso é apenas um preso, e a culpa ronda somente aqueles que exercem o poder sobre eles. Claro, durante o curso, pude ouvir muitas vezes que a base da administração da justiça é a lei, os prisioneiros, portanto, são infratores da lei, e a lei os condenou à pena de prisão por seus delitos. Vi também que um ou outro entre meus colegas tornado carcereiro ‘no porrete’ se agarrava a esse argumento, como se o fato de estar encarando criminosos deixasse imediatamente sua posição mais clara – a necessidade premente talvez me tivesse forçado também a testar esse método, mas a cada tentativa só pude constatar que nesse caminho era em vão que eu procurava minha sorte. Não sei por quê, mas a propensão para arbitragem está totalmente ausente em mim, e sentia que não havia nesse mundo delito algum que – pelo menos aos meus olhos – pudesse devidamente justificar a profissão de carcereiro (p. 342).

(...) Entre minhas tarefas como carcereiro, o que eu achava mais difícil era me acostumar com esse procedimento infame – mas, se eu estou me queixando, o que dirá aquele que era submetido a esse tratamento? A primeira vez – lembro-me, eu ainda estava fazendo o curso preparatório para o ofício – tiveram que me ordenar para eu executá-lo. O coração me batia na boca, de tanto medo que eu sentia da visão que se abriria diante de mim. Ao final, era bem diferente do que eu esperava, nada de terrível, talvez um pouco pior: inconsolável; Pelo buraco via uma cela, um catre, um vaso sanitário sem assento, um lavatório, e claro um homem, que tinha que viver ali dentro. Mais tarde tentei encarar isso como se não fosse eu que estivesse olhando, mas um carcereiro – claro, logo tive de me conformar, pois, de qualquer jeito, só poderia olhar como carcereiro, e ainda por cima um carcereiro que – infelizmente -, por sinal, era eu (...) (p. 344-5).

Pensamentos similares podem ser vistos em História Policial (1977). Nesse livro, porém, as discussões sobre regimes opressores usam como pano de fundo uma ditadura latino-americana. O ex-torturador Antonio Martens, preso após a queda do regime totalitário ao qual servia, conta suas memórias enquanto aguarda sua execução. Há um enfoque particular na tortura de um pai e um filho. Os fragmentos do diário do filho, jovem rico e idealista, complementam a caracterização do ambiente de tortura e nos ajudam a perceber a evolução das reflexões morais do próprio Martens sobre seu papel no regime de repressão.

Era uma pergunta difícil de responder. De fato: por quê? Eu não sabia. Nem agora sei. Não mesmo. Para ser sincero, nem me interessava saber. Nunca parei para pensar nos motivos, bastava-me pensar que de um lado existiam os criminosos e do outros, seus perseguidores. Quanto a mim, faço parte dos últimos. No combate ao crime, isso era suficiente; qualquer tipo de especulação consistiria num desgaste desnecessário (...) (p. 23).

Nos livros de Kertész, os personagens tentam entender quais seriam as diferenças entre o torturador e o prisioneiro. Essas duas pessoas seriam a princípio do mesmo tipo, mas por cumprir alguma lei ou ordem superior, uma delas comete bárbaras atrocidades contra a outra. Kertész também escreve sobre a morte. Não necessariamente a morte em si. Em diversos momentos, a morte é percebida aos poucos na pessoa que se anula, que perde sua concepção de identidade. Em Liquidação, B. estava escrevendo uma peça de teatro e cometeu suicídio. Em Eu, um Outro, livro com anotações fragmentadas do autor, Kertész escreve:

No trem, em algum lugar entre Zurique e Berlim, pensei ter encontrado o magma fervente, cheio de inspiração da peça de teatro que estou preparando: na personagem principal suicida vou chorar a morte da minha existência criativa, aquela que, ao longo de trinta anos de trabalho secreto, fértil e na realidade ingênuo, fez o casulo transformar-se em bicho-da-seda e criou este outro que sou agora. Entretanto, ele, o verdadeiro criador, está morto. Gostava e ainda gosto deste meu “eu” anterior, sofredor e estilizado em quem habitei por tanto tempo, este grande morto que vou enterrar na minha peça. Fico repetindo as palavras de Ibsen: escrever quer dizer fazer julgamentos sobre nós mesmos. Na peça, condeno-me à morte (em todos os meus trabalhos, eu sempre morro) e, se sobreviver à sentença, vou fugindo rumo a novas mortes (dentre as quais, provavelmente, vou me deparar, inesperada e totalmente despreparado, com a morte verdadeira. Que surpresa será!) (p. 75-6).

Eu, um Outro é um livro de 1997 no formato caderno de anotações, com trechos sobre existência, questões de identidade, de linguagem e tragédias da humanidade. Existem referências a ideias de filósofos e escritores, como Wittgenstein, Kafka, Camus, Hannah Arendt, Thomas Mann e Herman Hesse. Livros que ele estava lendo ou autores que ele traduziu. Cada fragmento pode tratar de um assunto diferente e não há títulos, apenas espaços separando um do outro. Alguns trechos revelam situações que ocorreram enquanto escrevia seus livros ou ensaios; outros parecem trechos que quase pertenceram aos livros. E talvez por esse motivo esse livro faça mais sentido quando lido após algum conhecimento das outras obras de Kertész.

(...) Como se tivesse sido nesse quarto que traduzi A origem da tragédia, que passei pelo temporal que figura no Kadish (daqui a um mês vai fazer dezoito anos). Foi nos clarões desse temporal que avistei quase todas as minhas obras futuras, relampejando e apagando-se numa luz semelhante ao raio, para se realizarem, uma atrás da outra, nas constantes alternâncias de inspiração e depressão, tais quais os fenômenos dos clarões do temporal (...) (p. 113-4).

Muitas indagações de Eu, um Outro são sobre vida e morte e dilemas a respeito da condição judaica. São pensamentos soltos, relatos cotidianos de alguém que viveu uma barbárie.

É preciso ter uma visão muito aguçada e uma mente muito flexível para poder perceber alguma espécie de legitimidade em sua vida; e se a tudo isso for associada uma espécie de teimosia tácita, na qual a sagacidade e a cegueira se misturam em proporções iguais, resultando no fenômeno singular do talento, nesse caso a pessoa vai descobrir essa legitimidade.
Por acaso, a vida estaria nos educando para chegarmos à conclusão final de que não vale a pena continuar vivendo? Sim, assim parece. Nossa vida não tem sentido, mas isso também é apenas aparência, pois entre a vida e a razão não há ligação. A menos que nós mesmos sejamos essa ligação. Ou seja, somos uma ligação que relaciona a vida à razão e embora na prática sejamos fracassados em ambas as esferas, tanto na da vida como na da razão, isto em si só não representa nada se comparado à dimensão insólita que cada vida humana gera. Talvez estejamos alcançando um objetivo, enquanto – no meio dos nossos afazeres diários – não damos valor a essa realização, às vezes nem a percebemos, e desta maneira, enquanto estamos alcançando a finalidade da nossa vida, julgamos inútil essa própria vida. Mas o que poderíamos fazer? Afinal de contas, a ‘vida’ é feita sob medida; e, mesmo supondo que cheguemos a reconhecer que a nossa existência é um engano, seria difícil considerarmos – pelo menos no que diz respeito à nossa própria pessoa – a morte como reparação digna do erro (p. 143-4).

Textos sobre escrita e morte também aparecem em um dos contos de A Bandeira Inglesa. 

(...) A morte, se nos preparamos continuamente durante toda uma vida para ela, como a verdadeira tarefa, sim – na realidade -, a única, quando a ensaiamos durante toda uma vida, quando aprendemos a encará-la como – no fim das contas – solução tranquilizadora, mesmo se não tranquilizadora: é algo sério. O tijolo, porém que cai sobre nossa cabeça, não é sério. O carrasco não é sério. Mas, veja só, apesar disso, os que não temem a morte também temem o carrasco. (...) (p. 27)

Depois de tanto adiar a compra de Bandeira Inglesa, tive a sorte de encontra-lo, pela bagatela de dez reais, numa feira de livros no Terminal Rodoviário do Tietê. Meu suspiro de felicidade quando vi o livro assustou o senhorzinho que estava do meu lado, mas já saí pagando e começando a ler. No último conto, há um relato ampliado de uma das cenas que apareceram em O Fiasco. Como já disse, os livros do Kertész estão todos ligados e isso é muito interessante.

Keréstz também trata em seus livros sobre a relação entre situações cruéis do mundo e decisões sobre ter ou não ter filhos. O escritor B., de Liquidação, relaciona a decisão ao trauma da experiência que ele e a esposa tinham vivenciado com o Holocausto. A situação traumática de um casal que viveu em campos de concentração e passou por guerras e ditadura, os condicionava a viver situações de prisão e a mulher parecia se punir em razão disso. Em Eu, um Outro, há uma anotação sobre isso.

(...) Eu tinha 24 anos, ela 33. Eu vinha de campos de concentração nazistas, diretamente da Endlösung e, em seguida, das profundezas descontroladas dos duros ‘anos cinquenta’ (…) E tudo isso, embora na época não pudesse notar nada, fez com que eu me sentisse mais inspirado do que derrotado. Ela também vinha da guerra, refugiada, sua família fora exterminada, sua fortuna – a herança dela – fora roubada; começou de novo, seu marido fora preso no começo dos processos stalinistas, seu dinheiro, seus imóveis foram confiscados; começou de novo; por fim, ela própria fora presa, ficara entre prisões e campos de internação durante um ano e tudo isso a fez voltar-se contra si, derrubou sua confiança nas opções que tinha feito. Cada uma das suas escolhas, eu inclusive e particularmente eu, era uma autopunição por alguma coisa mítica que ela nunca teve. Ambos continuávamos praticamente a levar nossa vida de prisão, e agora já o fazíamos juntos, porque só conhecíamos as prisões e só nos sentíamos em casa com a vida carcerária (...) (p. 170-1).

A prisão que ocorre após a tragédia, como se as pessoas estivessem condicionadas a esse tipo de vida, também aparece em A Bandeira Inglesa. É como se as pessoas, dado que passaram boa parte da vida dessa forma, não soubessem viver de outra.

(...) Esse romance de detetive me ensinou que, nas raras pausas de sua existência torturada, o homem precisa de prazer: eu não teria ousado dizer isso antes e, se tivesse, no mínimo como um pecado. Nessa época, perigos mortais ameaçavam-me na redação; para ser exato, perigos mortalmente tediosos, não por isso menos perigosos, a cada dia novos e, mesmo assim, a cada dia os mesmos. Nessa época, depois de uma interrupção breve e por nada justificada, os cartões de racionamento de comida voltaram a circular, principalmente para carne, na verdade – e principalmente para carne – de modo totalmente desnecessário, já que não havia oferta suficiente de carne que pudesse ter conferido uma certa seriedade à distribuição dos cartões. (...) (p. 14-5)

Em particular, a discussão sobre ter ou não filhos foi o tema de Kadish: por uma criança não nascida (1990). Esse livro compõe uma trilogia com Sem Destino (1975) e com o já citado O Fiasco (1988). Em Kadish, o escritor B. responde à pergunta “O senhor tem filhos?”. Sua mulher fizera essa mesma pergunta em outros tempos e ele agora dá a mesma resposta que colocou fim em seu casamento: um enfático “Não!”. A mesma resposta aparece, resumidamente, na história de B. em Liquidação (2003).

Kadish é um monólogo bastante denso e introspectivo para justificar a escolha tomada. Quase todos os seus parágrafos começam com “Não!” e podem se estender por várias e várias páginas. Em alguns momentos, parece um pedido de desculpas ao filho que não nasceu, o que nos remete ao termo Kadish, oração fúnebre no ritual judaico.

(…) mais tarde, quando tornou-se cada vez mais importante o fato de eu ser também judeu, pois tornou-se lentamente evidente que, em geral, isso era punido com a morte (...) subitamente me flagrei por saber exatamente o que sou: uma mulher careca com robe vermelho em frente ao espelho (p. 28).

A negação do nascimento, em Kadish, ocorre principalmente porque os pais não querem que um filho tenha seu destino já traçado, de maneira terrível, apenas pelo fato de ser judeu. Como o nascimento seria suficiente para torna-lo judeu, a forma de evitar maiores danos seria evitando o nascimento.

“Não!”, disse eu, ainda que nisso, no que concerne ao Não-para-judeus, haja razões suficientes, portanto já bastaria imaginar uma conversa mesquinha e desesperadora, digamos, imaginar o grito da criança, da nossa criança – teu grito -, disse eu; digamos, à criança chegou algo aos ouvidos, e ela já grita livremente, digamos, ela grita: “Eu não quero ser judeu”, isso seria perfeitamente imaginável e também perfeitamente compreensível, disse eu, que a criança não queira ser judeu, e então eu estaria em apuros com uma resposta, sim, pois como se poderia obrigar uma criatura humana a ser judeu (...) (p. 96).

“Não!”, nunca uma criança deve viver o que eu tive que viver, na infância, (p.99)

Kadish, como O Fiasco, é um texto com repetição de frases e ideias, parágrafos longos (que às vezes ocupam várias páginas), excesso de parênteses, sem divisão de capítulos e com uma pontuação nada usual. A escrita passa a impressão de ter sido feita em sequência e sem grandes revisões, em compulsão discursiva, como um desabafo do autor-personagem em ato contínuo.

(...) Aparentemente, porém, não se pode desviar de explicações, sempre nos explicamos, e tudo, mesmo a vida, esse inextrincável complexo de fenômenos e sensações, exige-nos explicações, nosso meio nos exige explicações e, finalmente, nós mesmos nos exigimos explicações até que, por fim, consigamos destruir tudo em nossa volta, também a nós mesmos, nos explicando até a morte (…) (p. 7).

Kadish é um livro sobre a negação da vida. Com reflexões sobre o fracasso do matrimônio, marcado pelas menções à “ainda futura, mas no momento já outrora mulher”. Ambos, esposa e marido, judeus em crise de identidade após o nazismo. Apesar de suas cento e poucas páginas, o texto não é simples de ler. A estrutura muitas vezes é penosa, densa, pouco linear e confusa. Mas ainda assim é um livro que vale a pena. Nele, Kertész também aborda escrita e expressão:

(…) os esperados resultados de meu trabalho, da escrita como literatura, da questão distante de mim, indiferente e indescritivelmente desinteressante, de agradar ou não agradar, da questão do sentido de meu trabalho, de questões, portanto, que desembocassem, por fim, em torno da questão mesquinha, suja, cínica e vergonhosa do sucesso ou insucesso. Como eu poderia explicar à minha mulher que minha esferográfica é minha pá? Que escrevo somente porque tenho que escrever, e que tenho que escrever porque sou chamado pelo apito, dia após dia, a afundar a pá, a alisar mais gravemente o violino e tocar mais docemente a morte? Que não posso realizar minha auto-liquidação, a única tarefa na Terra, se, ao mesmo tempo, alimento em mim pensamentos ilusórios, pensamentos ilusórios de resultado, literatura ou até sucesso (…) (p. 92-3).

Em O Fiasco, o velho Köves discute a recusa de seu livro (Sem Destino). Relendo seu próprio romance e suas anotações, decide escrever um novo livro, que corresponde à segunda parte de O Fiasco e recebe esse mesmo título. Ali ele conta o que o fez escrever o romance recusado do começo da história. Se Liquidação teve uma das melhores aberturas, O Fiasco teve um dos melhores finais:

O resto? Um happy end o aguarda: até chegar ao fundo do abismo, saberá que apesar de tudo seu livro foi impresso. Então, ele será transpassado por uma avidez dolorosa, e com a amargura da saudade vai saborear sem se satisfazer as lembranças doces do seu fiasco, o tempo que ele viveu uma vida tangível, concreta, embora corroído pelo sofrimento e alimentado pela secreta esperança, que depois um velho – que está parado diante do arquivo e pensa – não poderá mais compartilhar. Sua aventura de uma época, sua era heróica terminou de uma vez e para sempre. Transformou sua pessoa em objeto, diluiu em banalidade seu segredo obstinado, destilou em símbolos sua realidade inexpressível. O único romance que lhe foi possível escrever será apenas um livro entre livros, que se dividirá entre o destino dos demais livros, esperando que o olhar de um raro comprador venha, ocasionalmente, a cair sobre le. Sua vida será a vida de um escritor, que escreve e escreve seus livros até se exaurir por completo e ficar limpo qual um esqueleto, aliviado das supérfluas flores de retórica: da vida. Como diz a lenda, devemos imaginar Sísifo um felizardo. Com toda a certeza. Mas ele também é ameaçado pela clemência. Sísifo – e o trabalho forçado – são verdadeiros, eternos: mas a rocha não é imortal. Ao cabo de tanto rolar em seu caminho acidentado, ele se desgasta, e de repente, assobiando distraidamente, Sísifo dá-se conta de que já havia muito tempo ele chuta diante de si apenas uma pedra cinza na poeira.
E agora o que pode fazer com ela? Obviamente, ele se abaixa, apanha a pedra, coloca-a no bolso e leva-a para casa – pois ela lhe pertence. E nas suas horas vagas – pois agora só horas vagas o aguardam – certamente a pegará de vez em quando. Arrojar-se contra ela para fazê-la rolar encosta acima até o cume, claro, seria ridículo: mas poderá contemplá-la com seus olhos envelhecidos e afetados pela catarata, como se naquele momento também estivesse avaliando seu peso, sua forma. Envolve-a com os dedos trêmulos e insensíveis e com certeza ainda a terá agarrado nos seus últimos instantes, no derradeiro arroubo – quando tombar, sem vida, da cadeira defronte do arquivo. (p. 363-4)

Na realidade de Köves, tudo é incerto. Em muitos diálogos há o questionamento “e pode-se saber?”. Tudo depende de ordens superiores (ditadura) e existem dramas como o desemprego, o emprego de fachada, o suicídio, as prisões e a fuga. Esses aspectos também aparecem nos contos de A Bandeira Inglesa.

(...) quem poderia julgar aqui, exceto aqueles que julgavam? Qual verdade eu poderia captar aqui além da verdade dessa cena risível, dessa cena – no fundo – infantil, ora, e da verdade que poderia levar qualquer um em qualquer hora num carro preto, uma verdade – no fundo, também óbvia (...) um humem, que ontem aqui era o figurão, hoje poderia ser xingado com o nome de predadores do tipo canino e, a qualquer hora, poderia ser levado num carro preto a qualquer lugar – quer dizer, ele (eu) percebia apenas a falta de toda estabilidade (...) (p. 26).

Nos seus trabalhos, Kertész faz reflexões sobre o trabalho da escrita. Há um escritor em Liquidação, um escritor em O Fiasco, um jornalista-escritor no primeiro conto de Bandeira Inglesa. Em Eu, um Outro e em A Língua Exilada, aparecem textos sobre a atividade do escritor, o idioma em que se escreve e as motivações de escrita. Acima de tudo, em Eu, um Outro, podemos notar como Kertész não sente que pertence a lugar algum. Não sabe se é judeu ou se é húngaro ou se é meramente um sobrevivente. 

(...) Não se pode viver a liberdade no mesmo lugar onde se viveu a servidão.
Deveria ir a um lugar distante, bem longe daqui. Mas não o farei. Então sou eu quem precisa renascer, transformar-me… mas em quem, em quê? (p.9)

Essas sensações fazem parte dos ensaios de A Língua Exilada. O livro traz uma coletânea de ensaios, resultado de apresentações de Kertész em encontros pelo mundo. Os temas são similares aos de Eu, um Outro, mas a reflexão ocorre de modo mais estruturado e ajuda muito a entender a visão do autor a respeito de questões retratadas em seus romances. Extremamente lúcido e tão reflexivo quanto se podia esperar, Kertész discute a extrapolação do Holocausto como um drama da humanidade, discute a questão do pertencimento, da identidade e, como se suspeitaria pelo título do livro, também fala da linguagem. A linguagem e suas limitações estão presentes em quase todos os seus livros, muitas vezes na voz de personagens-escritores que se perguntam por que e para quem escrever e como usar a linguagem para expressar e explicar a barbárie.

Mas onde pode se abrigar o saber do Holocausto, que língua poderia dizer de si mesma que o Holocausto é seu sujeito, que o Holocausto é seu Eu dominante?

Seus livros abordam sempre aspectos ligados a regimes de opressão ou ao Holocausto em si. Mesmo assim, em seu discurso de premiação do Nobel, Kertész se defendeu das acusações de escrever apenas sobre o Holocausto, alegando que não se pode negar o lugar de Auschwitz nas estantes de livros e que não dá para negar que todo livro que surgiu depois de Auschwitz tenha tido sua influência.

(...) Quando escrevemos sobre Auschwitz, devemos considerar que Auschwitz – ao menos num certo sentido – suspendeu a literatura. Seria possível escrever um romance macabro sobre Auschwitz ou – perdoem a expressão – um seriado barato que começaria em Auschwitz e ainda duraria até os dias de hoje. O que significa que não aconteceu nada desde Auschwitz que a tivesse negado ou refutado. Nos meus escritos, o Holocausto nunca apareceu no passado. (A língua exilada, p. 16)

Se você busca um romance reflexivo sobre a humanidade no contexto do Holocausto e de ditaduras, e especialmente de dilemas vividos por judeus no mundo contemporâneo, Imre Kertész pode ser uma boa pedida. O totalitarismo e o holocausto ocupam lugar central nos seus livros, que pincelam diversos problemas relacionados e a leitura dificilmente passará em branco. O provável é que você termine o livro lamentando um pouco a humanidade, mas pensando em como o autor conseguiu traduzir aquilo em palavras. Os livros fogem da lógica da leitura rápida e sem esforço, sendo muitas vezes densos e repetitivos, mas a recompensa é boa.


Nayara Peneda Tozei

Mineira de Itabirito, é economista e professora. Nos tempos livres, dedica-se às conversas com a família, à literatura (especialmente clássicos), à boa culinária vegetariana e aos bons vinhos. Autores como José Saramago e George Orwell estão sempre por perto.






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