Crônica Escritor Marcelo Lemes

Nostalgia do que nunca aconteceu

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Olhar para o passado às vezes dói. Uma sensação de impotência passeia pela alma, perante o inexistente que ainda vive na memória. É triste imaginar o sorriso da garota que um dia fez o coração queimar nas chamas do amor, lembrar-se das incontáveis vezes que o brilho dos olhos dela traçou um destino no patamar dos sonhos, e se dar conta de que nada disso existe mais, diluiu-se no tempo, feito uma névoa ao calor do Sol. O mais assustador é descobrir que algumas coisas na vida acontecem apenas uma vez. 

Claro que é possível mergulhar no tempo e reviver momentos agradáveis, sem ficar frustrado ou cair em ressentimentos. Alguém já disse que somos a soma de nossas lembranças, e é bem provável que isso seja verdade. Quem nunca experimentou aquela felicidade de poucos segundos ao sentir saudade de um dia marcante? Talvez os melhores dias sejam aqueles vividos com disposição ao lado dos melhores amigos. E, por ser raro isso acontecer com frequência, relembrar é o que resta em tempos de vazio inevitável.
No entanto, mais estranho do que tudo isso é sentir falta de algo que nunca aconteceu. Conceito meio paradoxal, quase sem nexo, mas real. Músicas antigas geralmente surtem esse efeito. Além de fazerem momentos do passado ressurgirem no pensamento, podem levar o ouvinte a idealizar cenas inesquecíveis, que ainda não tiveram a chance de existir; com pessoas especiais, que nem conhecemos de perto; em lugares de distância incalculável e definição incerta. O poder das melodias de outras gerações é sutil. Sem notar, o pensamento constrói vidas felizes, fotografias de sorrisos luminosos, ao lado daquele amor platônico que, talvez, o destino jamais permita se realizar. Uma leve dor de saudade, desfeita no vazio do nunca, machuca, faz a realidade parecer tão valiosa quanto aquele maço de cigarros amassado e jogado na calçada pela mão de um fumante infeliz. 

Quem nunca, pelas ruas de uma cidade desconhecida, observando casas, vendo pessoas, não viajou na ideia de estar na pele de outra existência, pertencer à outra casta e, quem sabe, levar uma vida diferente, mais interessante, com aquele brilho de felicidade leve, tão fácil de ver na pele alheia? Se você ainda não fez isso, meus parabéns, sua imaginação é tão fértil quanto um cadáver mumificado. Até porque imaginar é abrir as janelas para o impossível. E isso é, no mínimo, fascinante. “Ah, mas estou 100% satisfeito com minha vida e não consigo imaginá-la de outra forma”, podem pensar alguns, na contramão desse argumento. Mas... Será?  

Às vezes, o olhar indiferente de alguém interessante no metrô, por exemplo, difunde sonhos inteiros no decorrer de minutos. Cenas bonitas com legendas românticas passam pela cabeça, na mesma velocidade do metrô, e se diluem na multidão, logo na estação seguinte. A pessoa contemplada seguirá seu destino e morrerá sem fazer ideia do protagonismo. E àquele que tropeçou na fraqueza de contemplar restará apenas uma saudade oca, sem motivo de existir. Também se diluirá na multidão e não saberá que protagonizou os devaneios de outro observador, o qual, por sua vez, estará saudoso, sem entender o motivo. 

Parece loucura. Concordo. No entanto, a necessidade de fechar os olhos para a realidade presente e buscar conforto em ilusões deixadas para trás é real. Sentir saudade faz bem. Principalmente quando o fato nem aconteceu. Pois, nesse caso, a possibilidade de ainda acontecer compõe a trilha sonora inédita do dia seguinte.        


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