Escritores Paulo Leminski

ESCRITORES: Paulo Leminski

14:19Isabela Lapa




"Poeta não é só quem faz poesia. É também quem tem sensibilidade para entender e curtir poesia. Mesmo que nunca tenha arriscado um verso. Quem não tem senso de humor, nunca vai entender a piada."

(P. Leminski, em "correspondência a Régis Bonvicino")




Paulo Leminski Filho (Curitiba, 24 de agosto de 1944 — Curitiba, 7 de junho de 1989) foi escritor, poeta, compositor, contista, tradutor, biógrafo, publicitário e professor brasileiro. Era, também, faixa-preta de judô.

Dos poetas da sua geração foi aquele que com maior radicalidade integrou a artesania da palavra com a espontaneidade da criação. Sem pudores de rimar humor e dor, seus textos podem ser lidos em múltiplos registros, do culto ao popular, sem perder seu poder de comunicabilidade. Estudioso de línguas e pesquisador da linguagem, sua obra está mais próxima a da "poesia de invenção", e na prosa, ao "experimentalismo", tendo em seu "Catatau" e em "Agora é que são elas", dois momentos altos desta prosa chamada por ele mesmo de "porosa".

Mestiço de pai polonês com mãe negra, é dono de uma extensa e relevante obra. 

Desde cedo inventou um jeito próprio de escrever poesia, trabalhando poemas breves, trocadilhos e brincadeiras com os ditados populares. Foi um importante divulgador do haicai no Brasil, gênero da poesia japonesa que praticava com maestria. 

Aos catorze anos, foi para o Mosteiro de São Bento em São Paulo, onde estudou grego e latim. Participou do I Congresso Brasileiro de Poesia de Vanguarda onde conheceu Haroldo de Campos, amigo e parceiro em várias obras.

Estreou em 1964 com cinco poemas na revista Invenção, dirigida por Décio Pignatari, porta-voz da poesia concreta paulista. Teve ao seu lado por vinte anos a poeta Alice Ruiz, com quem teve três filhos. Juntos influenciaram decisivamente não apenas a cena da poesia da sua época, mas, toda uma geração.

A música também foi uma de suas paixões, proporcionando uma discografia rica e variada. Verdura, de 1981, foi gravada por Caetano Veloso no disco Outras Palavras. 

Por sua formação intelectual, Leminski é visto por muitos como um poeta de vanguarda, todavia por ter aderido à contracultura e ter publicado em revistas alternativas, muitos o aproximam da geração da poesia marginal. Em 1975 lançou o seu ousado Catatau, que denominou "prosa experimental".

Além de poeta e prosista, Leminski foi também tradutor. Sua personalidade inquieta, intensa e carismática, seu pensamento arrojado e inventivo, transformou-o em referência no cenário da cultura brasileira.

Conviveu com poetas, músicos e intelectuais de sua época como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Régis Bonvicino, Moraes Moreira, Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik, Arnaldo Antunes, Wally Salomão, Jorge Mautner, Antônio Cícero, Antonio Risério, Julio Plaza, Reinaldo Jardim, Fred Maia, Regina Silveira, Helena Kolody, Turiba, Ivo Rodrigues. Foi tradutor de Alfred Jarry, James Joyce, John Fante, John Lennon, Samuel Beckett e Yukio Mishima.


Entre 1987 e 1989 foi colunista do Jornal de Vanguarda que era apresentado por Doris Giesse na Rede Bandeirantes. Foi um estudioso da língua e cultura japonesas e publicou em 1983 a biografia de Matsuo Bashô. Leminski também era faixa-preta de judô. Sua obra literária tem exercido marcante influência em todos os movimentos poéticos dos últimos 30 anos.


"esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem"


"Ser poeta é ter nascido com um erro de programação genética que faz com que, em lugar de você usar as palavras pra apresentar o sentido delas, você se compraz em ficar mostrando como elas são bonitas, têm um rabinho gostoso, são um tesão de palavra."


"O poeta é aquele que deglute a palavra como objeto sexual mesmo, como um objeto erótico. Para mim, a poesia é a erotização da linguagem, o princípio de prazer na linguagem."



OBRA POÉTICA E LITERÁRIA DE PAULO LEMINSKI




Poesia

LEMINSKI, Paulo. Quarenta clics em Curitiba.[Poesia e fotografia, com o fotógrafo Jack Pires]. Curitiba: Etecetera, 1976.

____. Polonaises. Curitiba: Ed. do Autor, 1980.

____. Não fosse isso e era menos, não fosse tanto e era quase (80 poemas). Curitiba: Zap, 1980.

____. Tripas. Curitiba: Ed. do Autor, 1980.

____. Caprichos e relaxos. São Paulo: Brasiliense, 1983.

____; RUIZ, Alice. Hai Tropikais. Ouro Preto: Fundo Cultural de Ouro Preto, 1985.

____. Um milhão de coisas. São Paulo: Brasiliense, 1985.

____. Caprichos e relaxos. São Paulo: Círculo do Livro, 1987.

____. Distraídos venceremos. São Paulo: Brasiliense, 1987.

____. La vie en close. [edição póstuma]. São Paulo: Brasiliense, 1991.

____. Winterverno. [edição póstuma] Com desenhos de João Virmond. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1994.

____. O ex-estranho. [edição póstuma]. São Paulo: Iluminuras, 1996.

____. Melhores poemas de Paulo Leminski. (Orgs.). MARINS, Alvaro; GÓES, Fréd. São Paulo: Global, 1996.

                                               P. Leminski, por Osvalter (Gazeta do Povo).

Romance

LEMINSKI, Paulo. Catatau. Curitiba: Ed. do Autor, 1975, p. 213.
____. Agora é que são elas. São Paulo: Brasiliense, 1984, p.163.


Novela

LEMINSKI, Paulo. Minha classe gosta. (Logo, é uma bosta). Curitiba: Raposa Magazine. Fundação Cultural de Curitiba/PR, nº 4, nov/1981.


Conto

LEMINSKI, Paulo. Descartes com lentes. [edição póstuma]. Coleção Buquinista. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1995.

____. Gozo Fabuloso. [edição póstuma]. São Paulo: DBA, 2004.


Biografias

LEMINSKI, Paulo. Cruz e Souza, o Negro Branco. São Paulo: Brasiliense. 1985, p.78.

____. Matsuó Bashô, a lágrima do Peixe. São Paulo: Brasiliense, 1983.

____. Jesus A.C. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 119.

____. Trotski: a paixão segundo a revolução. São Paulo: Brasiliense, 1986.

____. Vida. [reunião das biografias anteriores]. Porto Alegre: Sulina, 1990.


Ensaios

LEMINSKI, Paulo. Anseios crípticos(anseios teóricos): peripécias de um investigador dos sentido no torvelinho das formas e das ideias. Curitiba: Criar, 1986, p. 143.

____. Metaformose, uma viagem pelo imaginário grego. [edição póstuma]. São Paulo: Iluminuras, 1994.

____. Ensaios e anseios crípticos. [edição póstuma]. Curitiba: Polo Editorial, 1997.

____. Anseios Crípticos 2. [edição póstuma]. Curitiba: Criar, 2001.

____. "Apêndice". In: POE, Edgar Allan.O corvo. São Paulo: Expressão, 1986.
____. "Poesia paixão da linguagem". In: Sentidos da paixão. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1987.

____. "Nossa linguagem". [edição póstuma]. In: Leminski, Paulo (Org.). Revista Leite Quente. Curitiba, Fundação Cultural de Curitiba, v.1, n.1, mar.1989.



Literatura Infanto-juvenil

LEMINSKI, Paulo. Guerra dentro da gente. São Paulo: Scipione, 1986, p. 64.
____. A lua foi ao cinema. [edição póstuma]. São Paulo: Pau Brasil, 1989. 


Roteiros de H.Q

LEMINSKI, Paulo. O anãozinho do bordel. Grafipar, 1979, PR. Reproduzida em "Volúpia" de Júlio Shimamoto. Opera Graphica, SP, 2000.

____. Sinal verde para o prazer. Grafipar - Paraná, 1979.

____. A vida e morte. Grafipar - Paraná, 1979.


Textos inéditos

LEMINSKI, Paulo. Argumento. Peça teatral.

____. Roteiro para documentário sobre o Museu David Carneiro.

____. Quando papai voltar. Roteiro de H.Q.


Correspondências

LEMINSKI, Paulo. Uma carta uma brasa através. [Cartas a Régis Bonvicino]. Iluminuras, São Paulo, 1991.

____. Envie meu dicionário. [Cartas a Régis Bonvicino e alguma crítica]. 34 Letras, São Paulo, 1999.


Entrevista

LEMINSKI, Paulo. Entrevista concedida pelo poeta paranaense [a Ademir Assunção], publicada na revista Medusa. Curitiba, n. 6, p. 7-9, ago./set. 1999.

____. Um escritor na biblioteca ("bate-papo"). Biblioteca Pública do Parana, Curitiba, 1985.

____. Paulo Leminiski. reunião de entrevistas e resenhas. [Série Paranaenses nº 2], Scientia et Labor, Curitiba, 1988.



No cinema

LEMINSKI, Paulo. Roteiro para documentário sobre o Museu David Carneiro.
____. Drama da fazenda Fortaleza. (participação no roteiro).


Publicações no exterior

LEMINSKI, Paulo. Szórakozott Gyozelmunk[Tradução de Zoltán Egressy]. Hungria: Kráter, 1994.
____. Aviso a los náufragos. [Traduzida por Rodolfo Mata]. Coyoacán-México: Eldorado, 1997, p. 79.
____. Lemiskiana: Antología Variada. [Tradução Mario Cámara]. Buenos Aires: Corregidor, 2005.






PRODUÇÃO MUSICAL DE PAULO LEMINSKI

1981 - Verdura. [Caetano Veloso], no disco "Outras palavras".
1981 - Mudança de estação. [A cor do Som], no disco "Mudança de estação".
1981 - Valeu. [Paulinho Boca de Cantor], no disco "Valeu".
1982 - Se houver céu. [Paulinho Boca de Cantor], no disco "Prazer de viver".
1982 - Razão. [A Cor do Som], no disco "Magia tropical".
1988 - Filho de Santa Maria. [com Itamar Assumpção], no disco “Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava!!!”.
1990 - Verdura. [Blindagem], no disco "Blindagem".
1990 - Se houver céu. [Blindagem], no disco "Blindagem".
1993 - Mãos ao alto. [Edvaldo Santana], no disco "Lobo solitário".
1994 - Luzes. [Susana Sales], no disco "Susana Sales".
1996 - Mudança de estação. [A cor do Som], no disco "Ao vivo no circo".
2004 - Flôr de cheiro, Quem faz amor faz barulho, Caixa furada. [com Marinho Gallera], no disco "Fazia poesia".
2004 - Valeu e Se houver céu. [Paulinho Boca de Cantor], no disco "Gera sons - ao vivo".
2006 - Não Mexa Comigo. [com Casca de Nós] - Estrela Ruiz Leminski e Teo Ruiz, no disco "Tudo tem recheio".

*Leminski também possui muitas músicas em parceria. Nelas, ele fez apenas a letra. 


"abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno"

                                       Caetano Veloso, Paulo Leminski e Moraes Moreira



POEMAS ESCOLHIDOS DE PAULO LEMINSKI


HAI KAI

O ideograma de kawa, "rio", em japonês, pictograma de um fluxo de água corrente, sempre me pareceu representar (na vertical) o esquema do haikai, o sangue dos três versos escorrendo na parede da página...

HAI
Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me,
ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.

KAI
Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.

De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.

A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.



No instante do entanto

Diga minha poesia 
E esqueça-me se for capaz 
Siga e depois me diga 
Quem ganhou aquela briga 
Entre o quanto e o tanto faz - Paulo Leminski, do livro "O ex-estranho", 1996.



Um poema 

um poema 
que não se entende 
é digno de nota 

a dignidade suprema 
de um navio 
perdendo a rota 




As flores 

as flores 
são mesmo 
umas ingratas 

a gente as colhe 
depois elas morrem 
sem mais nem menos 
como se entre nós 
nunca tivesse 
havido vênus.



Amor, então, também, acaba? 

Amor, então, 
também, acaba? 
Não, que eu saiba. 
O que eu sei 
é que se transforma 
numa matéria-prima 
que a vida se encarrega 
de transformar em raiva. 
Ou em rima. 



Aqui

aqui 
nesta pedra 
alguém sentou 
olhando o mar 
o mar 
não parou 
pra ser olhado 
foi mar 
pra tudo quanto é lado.



Ai daqueles

ai daqueles 
que se amaram sem nenhuma briga 
aqueles que deixaram 
que a mágoa nova 
virasse a chaga antiga 

ai daqueles que se amaram 
sem saber que amar é pão feito em casa 
e que a pedra só não voa 
porque não quer 
não porque não tem asa.



Além alma

(uma grama depois) 
Meu coração lá de longe 
faz sinal que quer voltar. 
Já no peito trago em bronze: 
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR. 
Pra que me serve um negócio 
que não cessa de bater? 
Mais me parece um relógio 
que acaba de enlouquecer. 
Pra que é que eu quero quem chora, 
se estou tão bem assim, 
e o vazio que vai lá fora 
cai macio dentro de mim?



Arte do chá

ainda ontem 
convidei um amigo 
para ficar em silêncio 
comigo 

ele veio 
meio a esmo 
praticamente não disse nada 
e ficou por isso mesmo 


Aviso aos náufragos

Esta página, por exemplo, 
não nasceu para ser lida. 
Nasceu para ser pálida, 
um mero plágio da Ilíada, 
alguma coisa que cala, 
folha que volta pro galho, 
muito depois de caída. 

Nasceu para ser praia, 
quem sabe Andrômeda, Antártida, 
Himalaia, sílaba sentida, 
nasceu para ser última 
a que não nasceu ainda. 

Palavras trazidas de longe 
pelas águas do Nilo, 
um dia, esta página, papiro, 
vai ter que ser traduzida, 
para o símbolo, para o sânscrito, 
para todos os dialetos da Índia, 
vai ter que dizer bom-dia 
ao que só se diz ao pé do ouvido, 
vai ter que ser a brusca pedra 
onde alguém deixou cair o vidro. 
Mão é assim que é a vida? 






"Sintonia para pressa é presságio"


"Famoso, respeitado, dono de um enorme prestígio, Paulo Leminski realmente ampliou-se ao limite máximo e partiu em direção ao "sonho de outras esferas". Viveu com a intensidade de um samurai zen budista e construiu uma obra seguramente inscrita definitivamente na pele da prosa e da poesia brasileira. Poeta inovador, polemista irreverente, agitador imantado e - fatalidade inquestionável - humano, atingiu uma luminosidade extrema ..."
- Ademir Assunção, [em artigo]. Caderno Artes e Espetáculos do Jornal da Tarde. São Paulo, 29/3/1991.


"eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala"


“Aqui jaz um grande poeta. Nada deixou escrito. Este silêncio, acredito, são suas obras completas.”



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2 comentários

  1. Só posso aplaudir Paulo Leminski.

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    Respostas
    1. Ele é mesmo sensacional Eva Gomes de Oliveira! Obrigada pela participação!

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