As coisas simpáticas da vida Crônica

O tempo só não muda isso, de Felipe Braga Netto

00:00Isabela Lapa

Hoje é quarta, dia de crônica do Felipe Braga Netto...

Eu adoro todas as crônicas dele e já postei várias aqui no blog (clique aqui para ler), então aproveite:

O tempo só não muda isso 

“Jardim, convite à preguiça, exige trabalho infatigável”. 
Drummond

Daqui do 11º andar vejo o jardim. A casa é antiga, de linhas clássicas, e eu a conheço bem daqui de cima. Está cercada por prédios mas resiste com dignidade. É uma parte bonita de passado que não contradiz o presente. Vejo o telhado vermelho, vejo a curva da escada, vejo e acho bonito.

Mas bonito mesmo é o jardim. O dono nem desconfia mas ele já é um pouco meu. Quando estou cansado de escrever ou mesmo triste, venho para minha pequena janela (onde ninguém me vê) e vejo o jardim. Vejo rosas vermelhas, rosas brancas e até – vejam só – rosas rosas.

Parece mentira, mas na capital mineira, nesse apressado século XXI, tão digital e tão sabido, existe um lugar com galinhas que passeiam à sombra de velhas árvores. Galinhas – juro por Deus – que nunca ouviram falar em terrorismo. Galinhas sem opiniões a respeito do aquecimento global. Se me contassem talvez não acreditasse, mas olha ali, leitor, está vendo?

Bonito, não? Também acho. Tem gosto de infância, verdes coisas saudáveis, um pedacinho de eternidade que de tão bom parece inventado. Além das rosas, há outras formas breves e coloridas que querem amizade. Olho uma, outra, fico admirado com a criatividade alegre de Deus.

Também me admira – justiça seja feita – esse honrado trabalhador que já aprendi a aplaudir: um jardineiro. Nunca o vi de perto, acho que nunca o verei. Não importa. Aposto que ele ama o que faz. Em toda profissão, em toda atividade, há quem faça por fazer e há quem faça por amor. Precisa dizer que as plantas sabem a diferença?

O jardineiro, sempre calçado de sandálias e amor, distribui carinhos às amigas plantas – que agradecem de modo colorido. Às vezes me assusto: corta corajosamente pedaços que eu não cortaria. Sabe o que faz: dias depois eles renascem – ainda mais fortes, ainda mais belas.

Só tenho vontade de dizer obrigado, obrigado. Eu vejo o jardim e descanso. Às vezes rezo. Aprendo que o tempo muda tudo. Menos o que é eterno.


Felipe Braga Netto

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